quarta-feira, 24 de junho de 2020

Valores Religiosos - a palavra aos alunos - 5

Dharmacakra localizado no topo do Templo Jokang em Lhasa, no Tibete.

«A experiência religiosa é de tal forma íntima e espiritual que todo indivíduo participa diferentemente nela e de acordo com a sua fé. Contudo, apesar da vivência religiosa ser intrínseca ao indivíduo e depender exclusivamente do mesmo, na medida em que a dimensão social da religião costuma criar uma forte identidade, cultura e comunidade onde está instalada, há um inerente domínio sobre as pessoas dado que estas estão sujeitas a diversos conjuntos de práticas e normas que se tornam culturalmente submissas aos ritos, símbolos, histórias, entre outros.

Nesse sentido, independentemente da sua religião e forma de expressar a religiosidade, o indivíduo não procura a religião, mas a religião e suas normas padronizadas é que impõem a sua participação nela. Por outras palavras, a religião institui por força e autoridade política de tal forma que até mesmo há crianças que, antes de sequer saber discernir o bem do mal, participam da sua dimensão social. Em suma, a iniciativa pessoal pode não possuir força suficiente para combater algo tão estabelecido e fixo que pode ser a religião e, por outro lado, ter sua “rebelião” reprimida - inclusivamente por parte da família ou por pessoas consideradas importantes para o indivíduo.

A crença ou fé faz parte da dimensão pessoal da religião, porquanto a experiência religiosa é sensível e individual. Sendo assim, ninguém sem crença pode ser obrigado a tê-la, analogamente ninguém com crença pode ser obrigado a perdê-la, pois a sensibilidade religiosa é influenciada pela essência de cada um, imutável e com valor de verdadeiro, relacionando diretamente a espiritualidade com a fé numa determinada religião.

A cerimónia fúnebre faz parte da dimensão social da religião, pois se trata da concretização de ritos e práticas institucionalizadas pela religião praticada.

Sendo a oração uma súplica, pedido dirigido a Deus, a um santo, a uma divindade, uma procura de uma relação com Deus, esta faz parte da dimensão pessoal, visto que requer uma elevada ou suficiente quantidade de sensibilidade religiosa. Por outro lado, também faz parte da dimensão social, na medida em que as orações podem ser realizadas em grupos e destinadas a indivíduos não pertencentes à comunidade, porquanto o Deus ao qual é suplicado, é Deus de todos.

A veneração ou idolatria a um determinado santo faz parte da dimensão pessoal da religião, pois é o sentimento excessivo do indivíduo por tal figura que provoca tamanha admiração e devoção, isto é, crença de adesão livre e da vivência pessoal. Em contraste, a idolatria não pode fazer parte da dimensão social, por debater-se - principalmente - com os códigos morais da religião, visto que os ídolos se substituem à figura de Deus.

A peregrinação (a Fátima ou a Meca), não é apenas um caminho realizado por um devoto de uma determinada religião, isto é, relaciona-se com a concretização da crença individual, atribuindo-se, assim, valores e sentidos que excedem a simples ação de caminhar. De tal forma que faz parte da dimensão pessoal e social em simultâneo. Por um lado, um indivíduo sem fé é incapaz de peregrinar dada a sua falta de admiração ou afeto ou até mesmo reconhecimento da religião quanto experiência religiosa, por outro, a peregrinação é uma prática que possuí grande valor social, sendo parte de determinadas culturas e comunidades. Por outras palavras, o ato de peregrinar é religiosamente social, porém não possuí qualquer relevância quando o praticante não está interiormente motivado e crente dos objetivos da jornada.

"Deus abandonou-nos" ou "Deus pôs-nos à prova". Em ambas as expressões há a presença de Deus e a sua inerente existência. Traduzindo-se, assim, as situações de calamidade como materialização da ausência de Deus ou um desafio proposto por Ele. Por outras palavras, tais pressupostos relacionam-se através da dimensão social da religião, na medida em que ambos estão de acordo com os escritos sagrados, onde qualquer desventura enfrentada pelo Homem corresponde à ausência de Deus ou aos obstáculos introduzidos por Ele, como forma pôr-nos à prova em aspetos específicos, ou seja, visto que resulta na expressão dos conjuntos de narrativas, mitos, histórias institucionalizadas pela religião.

Um símbolo é qualquer objeto, abstrato ou físico, que possuí um significado referente a outro objeto. Por exemplo, a Roda do Dharma (figura acima) - símbolo do budismo - representa religiosamente o “Nobre Caminho Óctuplo” o que, numa óptica cética religiosamente, não é nada além de um círculo com oito raios. Isto é, religiosamente os símbolos assumem valores e conotações que variam de indivíduo para indivíduo como também de crente para crente, exercendo - portanto - uma função de extrema relevância, pois - na perspetiva da dimensão pessoal - representam aceitação ou reconhecimento por parte do indivíduo portador quanto a sua vivência religiosa, a sua adesão à religião. Em contraste, - numa perspetiva social - inclui o indivíduo portador numa determinada comunidade, manifestando a identidade específica da religião como os seus conjuntos de valores e princípios com os quais o indivíduo se identifica e é identificado.

De fato a vulgaridade dos costumes religiosos nas sociedades contemporâneas tornam o sentido religioso de cada expressão despropositado, na medida em que são poucas as pessoas que possuem sensibilidade religiosa e exercem-na enquanto realizam costumes e práticas da sua religião.

O batismo, meramente simbólico e cultural, não atribuí qualquer valor ao bebé que - sequer capaz de exprimir-se por meio de palavras - é incapaz de perceber o sentido profundo do batismo. O Natal - um dos costumes cristãos mais importantes, senão o mais importante - reduzido ao comércio, glamour, comidas e um idoso que distribuí prendas, apresenta uma perda do real significado da data.

De forma geral, o valor religioso e espiritual que a sociedade dos dias que se seguem atribuí as práticas religiosas pode ser sintetizado nos casamentos religiosos. O casamento religioso surge como uma conceção preconcebida do matrimónio, onde as pessoas não designam a união a Deus, mas aos costumes tradicionais. Analogamente, as demais atividades religiosas carecem de real sensibilidade religiosa pelos praticantes, culminando no despropósito da experiência religiosa, no simples impulso de seguir o que é comum e normal, nada além de expressões sociais.

A dimensão social torna-se mais opressiva quando não há distinção entre os poderes políticos e religiosos, isto é, quando os detentores do controle do Estado baseiam-se numa única lógica religiosa, pois há uma religião que é privilegiada e consequentemente as demais são oprimidas. Uma vez que esses Estados - denominados teocráticos - estão situados no mundo muçulmano, a sociedade ocidental não sofre relevantemente, ao menos não radicalmente com penas que excedem a imaginação.

Nesse sentido, apesar de haver fundamentação religiosa na sociedade ocidental, - ainda que seja exigente contrariar normas previamente impostas pela tradição - há espaço para a manifestação da dimensão pessoal da religião atualmente.»

© Guilherme Marcello, "Dimensões pessoal e social da experiência religiosa", 11º ano.

(Foi mantida a grafia segundo a norma brasileira, de acordo com a nacionalidade do aluno).

terça-feira, 9 de junho de 2020

Valores Religiosos - A palavra aos alunos - 4



«Todas as religiões estão ligadas a uma cultura e, como tal, a primeira interação que o indivíduo
tem com o sagrado dá-se por conta da dimensão social. Esta experiência religiosa que é inerente
a uma comunidade familiar e até mesmo, à educação, terá um papel fundamental na abertura à
transcendência, que o indivíduo pode escolher ou não prosseguir na sua vida futura.
Frequentemente, esta dimensão pode estar demasiado enraizada num núcleo social o que, pode
causar restrições e constrangimentos na escolha do indivíduo, isto é, se este nascer numa família
onde princípios e práticas católicas estão muito presentes, como ir à igreja todos os domingos e
agradecer antes das refeições, pode tornar-se bastante difícil para o sujeito abstrair-se dessa
realidade e tentar, por ele próprio, chegar à sua dimensão pessoal da religião, isto é, escolher
aderir a uma religião, expressando crença e fé numa realidade transcendente, de acordo com as
suas vontades, sendo uma adesão livre.

Estas duas dimensões não se podem separar uma vez que, o ser humano está profundamente
inserido numa cultura, numa sociedade e por isso, apesar de ser livre das suas escolhas e
práticas religiosas, este nunca se pode abstrair por completo daquilo que o rodeia o que, por
vezes, pode levar a conflitos interiores no sujeito. Será que a experiência religiosa que sigo é a
que verdadeiramente me identifico? Ou estarei a ser uma marionete da sociedade onde me
insiro?

Estas questões que abalam incessantemente o indivíduo e que o deixam a questionar a sua
liberdade de expressar a sua fé pessoal, só podem ser atenuadas se este estiver bem seguro das
suas crenças e valores religiosos, de modo a que a dimensão social e pessoal conseguiam
coexistir, sem por em causa a independência de escolha do sujeito.

As dimensões pessoal e social da religião estão completamente relacionadas pelo que, existem
muitas manifestações que apesar de dependerem da adesão livre do indivíduo, podem sempre
ser realizadas no contexto de uma instituição como a oração que, tanto pode ser praticada
individualmente através da relação estabelecida entre ser humano e entidade divina, ou pode ser
feita num contexto social, como por exemplo, orar com a família, e ainda, a prática de veneração
a um determinado santo, que pode ser feita em particular ou em comunidade.

Contudo, existem também algumas manifestações da religião que pertencem exclusivamente a
uma das dimensões tais como, uma cerimónia fúnebre e uma peregrinação, que normalmente,
pressupõe a prática conjunta de um grupo de pessoas que partilham da mesma experiência
religiosa, sendo por isso, características da vertente social.

Por outro lado, a crença é sem a menor das dúvidas, uma manifestação pessoal da religião uma
vez que, por muito que o indivíduo esteja constantemente sob a influência da dimensão social,
esta não pode incutir forçosamente no mesmo a “fé” religiosa dado que, é algo que é inerente ao
ser humano, ou se tem ou não se tem e como tal, não pode ser forçada ao indivíduo e muito
menos, retirada do mesmo.

Numa situação de calamidade como a que está a ocorrer atualmente, é frequente surgirem
explicações religiosas para o evento como, “Deus abandonou-nos”, “Deus pôs-nos à prova”,
tudo justificações que o ser humano adquire para algo que por vezes, é fruto do acaso.
A meu ver, ambas as abordagens sugerem que o indivíduo está preso no mundo ilusório criado
pela religião, um mundo no qual este está “imune” e seguro de todos os perigosos que recaem
sobre a fragilidade humana. O sujeito encontra-se mergulhado na irrealidade de que, a entidade
divina irá salvá-lo e guiá-lo para uma vida melhor e por isso, é que mesmo em situações
catastróficas este consegue adquirir forças para combater as angústias do momento.
O indivíduo compele-se a acreditar que “tudo acontece por uma razão” e como tal, aquela
catástrofe teve um significado divino para ocorrer, Deus está a por a humanidade à prova e de
certeza, que os que conseguirem lidar da melhor forma com a situação, serão recompensados na
vida eterna.

Por outro lado, a primeira perspectiva de que “Deus abandonou-nos”, apesar de parecer que
pressupõe uma falta de crença no sagrado uma vez que, este não foi suficientemente poderoso
para impedir uma situação desastrosa, esta depreende uma grande religiosidade por parte do
indivíduo, caso contrário como é que este iria atribuir à causa de uma calamidade, a ausência de
Deus? Este tem de ser uma entidade extremamente grandiosa e potente para que, o seu
afastamento consiga causar tais fenómenos catastróficos.

Assim, apesar de ambas as considerações se relacionarem uma vez que, presumem a crença
numa religião, estas são interpretações religiosas diferentes de uma mesma situação e como tal,
considero que se associam a uma posição pessoal.

Deste modo, é ainda reforçada a dimensão pessoal da religião pois, apesar de esta apresentar os
mesmos escritos sagrados e códigos morais para todos os seres humanos, cabe a cada
indivíduo analisar a mensagem religiosa que está inerente e fazer a sua vivência, de acordo com
aquilo que considera ser a perspectiva adequada ao mesmo e por isso, é que muitas das vezes,
dentro de uma mesma religião existem certas discrepâncias de pensamentos.
.
Todas as religiões apresentam uma identidade que pode ser expressa através de textos
fundadores que são traduzidos num conjunto de narrativas, códigos morais, mitos e símbolos, os
quais constituem formas de comunicação da mensagem religiosa, permitindo uma aproximação
e união com o divino.
O facto de uma cruz ter um significado perante o Cristianismo, permite que o indivíduo através
desse objeto do profano consiga contactar com o sagrado particularmente, isto é, sem ter de se
dirigir a uma instituição ou a um lugar de culto coletivo.



Para além disso, certas religiões podem dar uma importância quase divina a um símbolo, como
por exemplo no Taoísmo, o Yin-Yang. Este simboliza o modo como é regido o Universo, ou seja,
através de dois princípios ativos que juntos criam uma harmonia e equilíbrio, e através do qual,
os crentes podem inferir diversos conhecimentos que podem levar para a sua vida como, o facto
de serem precisas duas forças contrárias para se chegar a uma proporção. Neste caso concreto,
ainda pode reforçar a crença pessoal uma vez que, são comprovados factos do mundo real
através do mesmo como, o dia segue a noite, o positivo atrai o negativo.
De uma forma geral, creio que os símbolos permitem reforçar acima de tudo a ligação individual
com o divino embora, e estando as duas dimensões inteiramente relacionadas, estes também
tenham uma contribuição para manifestações coletivas da religião como por exemplo, uma
família não comer carne de vaca por considerar o animal sagrado.

A religião é algo que esteve sempre presente na vida da humanidade e como tal, os seus ideias e
costumes estão desde cedo enraizados numa cultura. A celebração do Natal, casamento
religioso e batismo são tudo cerimónias que no seu âmago, têm um significado que se relaciona
com o transcendente, o sagrado. Mas será que em pleno século XXI estas têm o mesmo valor
religioso que em décadas passadas? A forma e o motivo pelo qual são realizados, serão o que é
pretendido pela religião? A reposta é evidente, não.
Estes costumes religiosos foram perdendo o verdadeiro significado à medida que se foram
tornando parte de uma cultura, de um hábito, não de uma religião, mas da sociedade. Se em
tempos se podia distinguir um crente de um não crente pelo simples facto de celebrar ou não o
Natal, hoje em dia, essa tarefa torna-se praticamente impossível uma vez que, essa
comemoração de trato religioso converteu-se num costume social.
A partir do momento em que, o nascimento de uma entidade divina se torna uma fonte de lucro
para milhares de empresas e uma “desculpa” para disparar os níveis de consumo mundial, creio
que essa celebração foi engolida pela sociedade materialista em que vivemos, perdeu o seu valor
religioso.

É claro que não posso desprezar o facto de outros milhares de pessoas manterem ainda presente
o verdadeiro significado dessa cerimónia mas, serão poucas as que o reconhecem.
Vivemos numa cultura de massas, onde o mais valioso é ter bens materiais e onde as escassas
manifestações que podiam significar um pouco mais do que um mero numerário, estão a ser
constantemente corroídas pela sociedade.
O mundo está a sofrer uma dessacralização.

É um facto que a religião e os seus costumes estão enraizados na sociedade porém, temos de
considerar também, a dessacralização que o mundo está a sofrer. Ora se cada vez mais existem
“alternativas” ao pensamento religioso, isto é, outras vertentes para as quais são canalizadas a fé
de cada indivíduo, então é sinal de que não existe uma pressão assim tão grande que seja capaz
de impedir cada um de se expressar da forma que quer.
Para além disso, a questão da liberdade individual é algo que, atualmente, possui um carácter de
grande importância e por isso, ideias que contrariam este princípio têm sido gradualmente
menosprezados na sociedade.

Contudo, nem sempre foi assim, nem sempre o Homem teve o direito de escolher os valores e
ensinamentos que quis seguir, quer fossem eles de carácter religioso ou não. Este era
constantemente oprimido e pressionado a seguir a dimensão social da religião, era forçado a
viver a mesma experiência religiosa da sua família e amigos. E aí sim, nesses tempos que não
são assim tão longínquos, o ser humano era afetado pela excessiva projeção da dimensão social
que ofuscava os valores e pensamentos individuais.

Mas se considero que isso ainda acontece na sociedade atual? Não. É claro que existem
exceções, países onde a religião ocupa um lugar de “pedestal” e por isso, não seguir os
costumes religiosos é considerado intolerável porém, na sua maioria, vivemos num mundo
condescendente, onde cada um tem o direito de escolher muito mais do que a religião que quer
seguir. »

Leonor Nicolau, 11º ano

sexta-feira, 5 de junho de 2020

As hipóteses científicas e a incerteza

Ilustração alusiva ao coronavírus - (c)Milo Manara, Itália, 2020

As declarações do presidente do Instituto Nacional de Saúde, segundo o qual "poderemos assistir a uma nova vaga da Covid-19 muito pior do que a primeira" vêm corroborar aquilo que tento explicar aos meus alunos no âmbito do estudo do conhecimento científico. 

A Ciência evolui por saltos, por procedimentos experimentais, por ensaio e erro; e são precisamente as incertezas, as insatisfações e a busca de soluções cada vez mais aproximadas daquilo a que se convencionou chamar "a verdade", que a fazem evoluir. 

Não adianta nada ficarmos sistematicamente a condenar os cientistas porque não descobrem aquilo de que precisamos, aquilo que é tão urgente e necessário, aquilo que era para ontem; eles fazem o seu trabalho, que é pesquisar, experimentar e analisar resultados. Depois desenhar outras conjeturas, buscar outros caminhos, traçar planos alternativos. 

As soluções podem não vir em tempo útil? Pode acontecer. Mas mesmo tendo essa noção, o homem de Ciência não desiste de perseguir os seus objetivos e a persistência será o mais importante dos seus traços de caráter.
As incertezas, os avanços e recuos, as revisões e os passos atrás fazem parte do processo científico em si mesmo.
Devemos sim, estar agradecidos a todos aqueles que embranquecem os cabelos a pensar em soluções alternativas, a pesquisar nos seus laboratórios, a exporem-se aos maiores riscos e a ficarem míopes de tanto olhar pelos microscópios. 

Assim como Galileu ficou cego por tentar perceber o que eram as manchas do Sol, também os cientistas de hoje poderiam dizer, acerca da temível Covid-19 que assola o mundo em 2020, de cada vez que falham uma pesquisa ou que retardam em encontrar uma solução: "e contudo ela move-se!"

(Para ler a entrevista com o Dr. Fernando Almeida clique aqui.)