quarta-feira, 27 de maio de 2020

A Filosofia saiu à rua num dia assim

"Aguadeiros" - Alfredo Roque Gameiro, 1864-1935 *
«Não há um ano que seja em que um aluno não me venha com o argumento do “para que é que isto serve no mundo real?”. O “isto” é a Filosofia, mas servirá para outras disciplinas. O imediatismo não se compadece com o rigor do pensamento. Mas veio a pandemia, o céu que nos caiu em cima, e o que ontem era experiência mental passou a ser o pão nosso de cada dia nas televisões. Se é um teste à nossa capacidade médica e à vontade política, também pode sê-lo aos princípios morais pelos quais a sociedade se rege. Também é disto que a Filosofia trata.
O que é agir moralmente em tempo de pandemia e míngua de papel higiénico? Quais os limites de intervenção do Estado? O direito fundamental da liberdade está a ser posto em causa com a quarentena obrigatória? Estou disposto a abdicar da privacidade em nome da segurança? Até onde pode ir a vigilância digital? Posso fazer piadas com os mortos por Covid? Devemos impor restrições aos “media” que instigam o medo? Os mortos decorrentes de um desconfinamento prematuro são um custo aceitável para evitar um número maior causado por uma hecatombe económica? O que conta são as consequências ou há deveres absolutos? Há vidas que valem mais do que outras?
Atentemos nesta última questão. Dan Patrick, vice-governador do Texas, afirmou que preferia morrer a ver as medidas de saúde pública prejudicarem a economia dos EUA e que o resto do país não se deveria sacrificar pelos mais velhos. Mais ainda, afirmou que havia “muitos avós” dispostos a morrer para manter a América que todos amam para os filhos e netos. Ele era uma dessas pessoas. Caíram-lhe em cima, de pulha para baixo, vil espécime arraçado de Trump. O desplante de sugerir o sacrifício de um grupo social em prol do bem comum. “A minha mãe não é descartável”, apressou-se a proclamar Andrew Cuomo, governador de Nova Iorque.
Por cá, Ramalho Eanes, antigo Presidente da República, afirmou algo semelhante: “Nós, os velhos, vamos ser os primeiros a dar o exemplo. […] se for necessário, oferecemos o nosso ventilador ao homem que tem mulher e filhos”. Foi enaltecido como exemplo moral. Roçagou a unanimidade. Valter Hugo Mãe foi das poucas vozes a alertar para o perigo da mensagem. O velho que não comunga da opinião de Ramalho Eanes é menos digno ou egoísta? Sentirá a pressão social para que se descarte a si mesmo? Pode bem dar-se o caso de ser o velho de vida virtuosa e o jovem racista que bate na mulher, mas disso nada sabemos. Joga-se a idade, tudo o resto permanece na sombra. A decisão “a seco”. E se for o nosso velho? Ou eu o velho.
Podemos isolar uma parte da população contra a sua vontade, ainda que “para seu bem”? Quando se pergunta a Jerónimo de Sousa, cidadão adulto, no pleno uso das suas faculdades mentais, o que está a fazer na rua, uma vez que tem mais de 70 anos, não constitui isto um atestado de menorização aos mais velhos? Qual a legitimidade do Estado para manter alguém em regime de clausura, longe da vista e do coração, apenas tendo a idade por critério? Esse mesmo velho que conhece e quer cumprir com todas as orientações de segurança. O estigma social está aí. A um salto do idadismo. Pior se calha ser um velho sem dinheiro. Seria diferente se fossem as crianças o grupo de risco? Não, não estamos todos no mesmo barco, só a tempestade é a mesma.
Os dilemas morais são uma constante nas aulas de Filosofia. Os alunos envolvem-se e discutem com paixão. Muitos deles, pelo menos. Não que a decisão se torne mais fácil. São demasiados os cambiantes de cada caso concreto. As teorias morais não nos proporcionam respostas definitivas sobre o que devemos fazer, pelo contrário, uma questão moral pode ser elucidada e dissecada por distintas teorias. A Filosofia ajuda-nos a ponderar sobre as alternativas e a pensar lógica e criticamente. A não aceitar passivamente o que nos colocam no prato. Isso é bom e ganha importância por estes dias, em que a Filosofia saiu à rua e nos entrou de rompante pela vida adentro. Mesmo na dos alunos mais cépticos.»
Miguel Cardoso
in Jornal do Fundão, 27/05/2020

*(Imagem via Grupo Arte, Cultura e História in Facebook)

terça-feira, 19 de maio de 2020

Valores Religiosos - A palavra aos alunos - 3

A Religião e o sentido da Existência


Foto (c)Lelé Batita

No quotidiano, inúmeras situações refletem a fragilidade da condição humana, a finitude do ser humano, a contingência do individuo, a solidão do Homem. Os nossos dias são como estradas de cidade, cheias de bifurcações, rotundas, cruzamentos, becos sem saída, e nós, a nossa mente, somos o carro. Todos os dias temos um novo percurso a percorrer e somos nós que escolhemos o nosso caminho, nós e só nós. Mas qual será? Será que devemos virar à esquerda e visitar a avó, ou será que devemos virar à direita e ir cumprimentar a rapariga bonita à porta da mercearia? O ser humano sempre se prendeu no facto de a vida apresentar uma quantidade ínfima de possibilidades e de não sermos capazes de determinar um caminho certo e único. No entanto, uma coisa é certa, a vida tem uma duração definida, ninguém consegue escapar às garras da morte. E pode ser tão simples como tropeçar na calçada e cair para estrada, um condutor distraído e o coração para, assim, sem nada que possamos fazer para o evitar. Isto faz-nos de pensar também na contingência do ser humano, na importância que ele tem face ao mundo, face à existência. Será que a rapariga, que tentava alcançar reparou? Se calhar sim, se calhar viu-o caído mas será que isso o torna indispensável à existência humana? Será a morte dele um acontecimento que ponha em causa a vida, a existência humana? Não me parece. Podia existir como podia não existir, não fazia diferença. E por fim, a existência humana faz-nos ter consciência que por mais laços afetivos que estabeleçamos, vamos sempre estar sozinhos na derradeira hora. Ninguém acompanhou o rapaz, ninguém seguiu com ele para a escuridão, nem a avó, de quem tanto gostava. O ser humano está entregue a si próprio, às suas decisões e à sua liberdade.

A tese defendida pelo autor (Camus) centra-se no facto de que a sensação de Liberdade que por vezes sentimos, a sensação de que somos donos do nosso futuro é contraditória e por isso, contrariada pela morte. A morte impede que haja liberdade.
Segundo o autor, a morte desempenha um importante papel na consciência do individuo. Esta adquire um estatuto subordinante relativamente à vida e à liberdade, impedindo que estas tenham alguma autonomia. A morte é inevitável, não temos opção, não temos poder de escolha. A morte é a derradeira prova da nossa falta de liberdade.
O decesso tem assim, na nossa consciência, um papel de opressão, impossibilitando a existência de liberdade. “Essa liberdade superior, essa liberdade de ser que é a única a poder fundar uma verdade, sei então que ela não existe. A morte está ali como única realidade”.

Segundo o autor (Camus), a morte desempenha um importante papel na consciência do individuo. Esta adquire um estatuto subordinante relativamente à vida e à liberdade, impedindo que estas tenham alguma autonomia. A morte é inevitável, não temos opção, não temos poder de escolha. A morte é a derradeira prova da nossa falta de liberdade.
O decesso tem assim, na nossa consciência, um papel de opressão, impossibilitando a existência de liberdade. “Essa liberdade superior, essa liberdade de ser que é a única a poder fundar uma verdade, sei então que ela não existe. A morte está ali como única realidade”.

O autor põe em causa o sentido da existência a partir da relação entre a liberdade e a morte. Numa primeira instância, o autor afirma que o sentido da existência se encontra profundamente ligado com a liberdade dando vários exemplos: “Pensar no amanhã, fixar um objetivo, ter preferências, tudo isto supõe a crença na liberdade”. Posteriormente, como já vimos, afirma que a morte impede a existência da liberdade porque esta define uma realidade inevitável e obrigatória a todos. A morte não pode ser contrariada, não pode ser impedida e tendo em conta que a liberdade e a morte não podem coexistir, a liberdade não existe. Sendo assim, e realçando o que o autor refere relativamente ao sentido da existência, se não há liberdade, o sentido da existência fica comprometido. 

A crença na existência de uma entidade ou realidade exterior, superior e perfeita, capaz de intervir no rumo dos acontecimentos surge como elemento unificador, e até atenuador, estabelecendo uma ponte entre a angústia existencial do ser humano e o mistério da morte, surgindo uma certa harmonia entre razão e a fragilidade humana. 

Soren Kierkegaard considera a religião necessária ao individuo na medida em que esta será o meio de conferir um sentido à existência e vida humana, constituindo assim um meio de atenuar a vertigem e angústia do nada. O ser humano livrar-se-á, deste modo, da consciência do vazio e do sentimento de angústia, tomando consciência que a morte não é necessariamente o fim de tudo e, simultaneamente, que não está sozinho, que as escolhas não são em vão e que os acontecimentos realmente podem ter significado. Kierkegaard defende que a tal crença em algo fora da própria existência humana concreta e a própria fé, sentimento fundamental da vivência religiosa, conferem não só resposta aos problemas mais profundos da condição humana, como estes, mas também melhoram a capacidade aceitação do sofrimento, assim como atribuem um sentido à existência, fazendo ainda com que o ser humano se sinta protegido e que a sensação de angústia e fragilidade seja atenuada.

A existência de uma realidade fora da situação concreta em que vive o ser humano é uma ideia que nos acompanha desde o início dos tempos. Acasos e coincidências, sensação de déjà vu, milagres, fenómenos paranormais e premonições surgem frequentemente como indicadores dessa existência. A meu ver, estes acontecimentos não são de todo indicadores da existência de algo superior. Todos estes elementos são obra de anomalias à regra, exceções ao que é considerado normal. São todos explicados pela ciência, tal como tudo neste Universo, e nada significam nem simbolizam. No entanto, opiniões relativas a este tema são muitas. Soren Kierkegaard defende que os acontecimentos podem ter significado, sendo este significado conferido pela religião. Assim, segundo este autor, elementos como milagres, acasos, coincidências, etc, têm de facto, significado e resultam da intervenção de uma entidade ou realidade exterior, indicando a sua existência.

Muitas vezes, elementos como milagres, premonições, fenómenos paranormais, entre outros, assumem o papel de explicação para situações inexplicáveis, dando origem à discussão sobre a aceitação destes fenómenos enquanto argumentos.
Na minha opinião estes elementos não constituem, de maneira nenhuma, uma explicação para certas situações, consideradas por alguns “inexplicáveis”. Como mulher de ciência de sou, acredito que tudo tem uma explicação racional e lógica. Defendo que tudo pode ser provado através de uma equação, ou de uma lei física.
Os milagres nada mais são do que desvios do padrão, como tantas vezes acontece em experiências laboratoriais, situações excecionais. O facto de uma pessoa com às portas da morte sobreviver, não está, a meu ver, relacionado com alguma força divina mas sim com o facto de existirem células vivas dentro do organismo da pessoa, que precisavam apenas de tempo para entrarem em funcionamento. “A esperança é a última a morrer” é uma expressão que todos conhecemos e adquire uma importância muito grande quando falamos de saúde e morte. Eu acredito que, realmente, a esperança deve ser a última a morrer, mas a esperança em quê? Esperança que algo “inexplicável” ocorra, ou esperança que o organismo, como incrível que é, seja capaz de solucionar o problema através das suas múltiplas funcionalidades? A posição relativamente a este tema é clara: ciência. Tudo pode ser explicado pela ciência. 

As premonições também não constituem um argumento de explicação para as tais situações “inexplicáveis”. São baseadas pura e simplesmente em probabilidades matemáticas. Mesmo sem perceber matemática, o nosso cérebro é capaz de analisar a frequência com que certas coisas ocorrem, e como ocorrem, em que condições. E é com base nessa análise, nessas reações químicas que ocorrem no cérebro, que certas pessoas poderão pensar que tem premonições. Para além disso, esses vislumbres do futuro ou do presente longínquo não estão sempre certos, provando mais uma vez que resultam de uma análise matemática, constituindo uma probabilidade, não uma certeza. E resultando de fenómenos matemáticos e químicos, não de fenómenos divinos, muito menos constituindo situações “inexplicáveis”.

Não digo que aquilo que pensamos sobre a ciência esteja tudo certo. Há formulas a acertar, há leis a adaptar, teorias a desenvolver. Nós apenas tentamos saber o máximo que podemos tendo em conta onde e quando nos encontramos. Há coisas que certamente consideramos certas agora e mais tarde irão provar-se falsas mas isso não significa que não seja ciência. O que ainda não sabemos explicar hoje, iremos saber explicar amanhã, mas isto segundo leis universais, comprovadas e explicadas, não admitindo situações “inexplicáveis”

Em suma, considero o recurso a elementos acima enunciados, como milagres e premonições como meio de explicação de “situações inexplicáveis”, de facto, absurdo, uma vez que todos esses fenómenos podem ser explicados através da ciência e, mesmo que por agora, possa ainda não existir uma resposta explicativa e concreta para determinados acontecimentos, esta existe, mas, como sabemos a ciência está em constante progresso em desenvolvimento. 

Catarina Brites, 11º ano

quinta-feira, 14 de maio de 2020

De Fernando Pessoa para os meus alunos

Fernando Pessoa por (c)António Faria

"Põe quanto És no Mínimo que Fazes
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive"

Ricardo Reis, in "Odes"

Conhecimento versus Mitos

(c)Alexandre Beck/UFSC
Cortesia do Prof. José Matias Alves.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Cidadania e valores morais: a questão dos preconceitos

Imagem do Blogue "Crônicas de Paris"

Hoje venho aqui propor uma reflexão sobre um dos males da sociedade e que nos afeta, a uns mais do que a outros, mas que todos conhecemos: trata-se do papel dos preconceitos, que muitas vezes acarretam prejuízos emocionais, exclusão social, dificuldades de empregabilidade e traumas difíceis de ultrapassar.
Hoje falamos dos gordos, do muito que sofrem com o escárnio social e das machadadas que isso produz na autoestima.
Dou a palavra a uma jornalista brasileira que relata uma vivência na 1ª pessoa, ocorrida no Brasil.
Hoje, a mesma jornalista vive e trabalha em Paris e é estudante de Filosofia na Sorbonne. 
Convido-vos a comentar este artigo, transcrito na íntegra do Blogue "Crônicas de Paris".

Gorda

«Um dos episódios mais marcantes que eu passei no Rio de Janeiro foi quando uma vez peguei um ônibus para ir ao trabalho.  O destino final da linha era a rodoviária e estávamos numa quarta-feia, véspera de um "feriadão".  
Pois bem, o trânsito estava pesado, muito engarrafamento e o clima no transporte era de preocupação. Quando chegou perto de onde eu ia descer, o motorista, com aquele típico jeito de ser carioca, pergunta:
-Alguém quer aproveitar e ficar  no sinal?
Muita gente desceu, mas eu, cansada após cobrir um evento e precisando chegar à redação do jornal, ciente de que  a jornada do dia seria de pelo menos umas 13 horas até escrever a matéria antes do fechamento, tratei de prevenir:
-Motorista, eu vou descer no ponto mesmo, tá?
Foi quando fui surpreendia com a manifestação de um homem – que ao longo do trajeto já demonstrava muita insatisfação, resmungando palavrões e bufando a cada lentidão do tráfego.
-Ah, não! Pelo amor de Deus! Tem gente que vai viajar e tá com risco de perder o ônibus! Ca…(ele solta um palavrão), não pode caminhar até o ponto, não? Gorda pra caramba, devia andar mais!
Percebendo o tom ofensivo, confesso ter ficado bem abalada.  Mas consegui me dirigir a ele perguntando se estava se referindo a mim. Ao receber a resposta afirmativa, aos gritos, só tive tempo de dizer o que veio à cabeça.
-Eu pelo menos posso emagrecer. Pior quem é feio e nem cirurgia plástica adianta
O povo no ônibus riu, mas o indivíduo grosseiro não se fez de rogado. Mais revoltado ainda, de grosso acrescentou o deboche.
-Ah, agora a gordona se acha bonita, é? E desde quando gorda é bonita? Gooooorda! Goooorda! 
E ficou gritando “gooooorda” inclusive pela janela, depois que desci do ônibus. 
Lembro de ter entrado no prédio onde trabalhava, em frente ao ponto de ônibus, com o som de “gooooooorda” ecoando  em meus ouvidos. Entrei no banheiro, já aos soluços, uma colega, hoje uma amiga, solidarizando-se, me consolou.
-Não liga pra esse idiota. E você não é gorda!
Salto no tempo de 10 anos depois, estou sentada sozinha no balcão de um bar em Paris. O barman, um homem bem atraente, começa a puxar conversa. Num dado momento do diálogo, ele me diz:
-Você é muito bonita. Uma das mulheres mais bonitas que já vi de perto.
Percebendo, enfim, o tom de cantada e não estando interessada, respondo:
-Não sou bonita não, sou gorda.
O francês me olhou com uma cara de quem não tinha entendido. Falei então em inglês. Ele rebateu:
-Desculpa, mas não  foi a língua que não entendi. Foi sua associação entre ser gorda e não ser bonita. Conheço gordas lindas e magras feias, magras bonitas e gordas feias. Eu não estou falando do seu biótipo. Estou apenas te elogiando. Eu te acho linda.
O choque levou à reflexão imediata. Vim de um país onde ser gorda é sinônimo de ser feia. Não digo que não haja isso aqui, mas é em menor grau. Principalmente em se tratando de atratividade entre pessoas seguidores do preceito heteronormativo, baseado nas relações afetivas ou sexuais de quem tem atração pelo sexo oposto – pois é a seara que conheço. 
A frase ouvida da amiga na redação uma década antes “você não é gorda”, escutei a vida inteira. Hoje percebo que quem me falou isso estava querendo dizer “olha, você é bonita mesmo com a balança marcando um Índice de Massa Corpórea (IMC) de obeso.”. Seja porque meu corpo, apesar de redondo, tem forma de violão. Seja porque o “conjunto da obra” transmite uma certa harmonia que pode até me “fazer passar por normal”.
Normal no sentido de norma, padrão vigente. Muitas pessoas não fazem isso por maldade.  Mas gostaria de aproveitar a lição aprendida no balcão de bar parisiense para alertar que existe preconceito nessa fala. 
Tanto preconceito quanto aquele ouvido por pessoas negras do tipo “ah, mas você não é preto”, quando o indivíduo tem pele em tom menos escuro, ou as tais “feições finas”.  Ou do gay que escuta “ah, mas você sabe se comportar, não fica dando pinta por aí”, dito a quem não carrega o estigma do “viado que desmunheca”.
A negação de uma condição transformada em pretensos elogios só atrapalha o combate à padronização dominante. Essa mesma padronização que leva aos preconceitos de raça, compleição física, orientação sexual e o que mais houver.
Eu poderia teorizar infinitamente sobre essa questão, citando autores, filosofia etc. Mas este espaço não tem pretensões acadêmicas. Ao mesmo tempo, basta irmos a um museu e ver algumas modelos da Renascença ou até do Impressionismo para termos certeza: padrão de beleza é uma construção social. 
E se tem uma coisa boa dessa contemporaneidade na qual somos conectados pela tecnologia, é a capacidade de, justamente, desconstruir esses paradigmas. Eu sinto falta de mais representação de mulheres gordas consideradas sexy e bonitas. Eu estou cansada do estigma da gorda engraçada ou nerd. 
Estou cansada de um mundo onde “gorda” é xingamento. 
E o que isso tem a ver com Paris? Talvez o aprendizado de que ser gorda não quer dizer ser feia. Ou talvez porque, em terra de perna fina, quem tem coxão é rainha…»
Ana Paula Cardoso, Paris, 05/05/2019
Artigo do Blogue "Crônicas de Paris».
Na transcrição do texto foi respeitada a grafia da autora, segundo a norma brasileira.
Para ver o perfil da autora do texto, clique aqui.

Ana Paula Cardoso

sexta-feira, 1 de maio de 2020

1 de Maio, registo do descobrimento do Brasil

Oscar Pereira da Silva, Desembarque de Cabral em Porto Seguro-óleo de 1904

Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel I de Portugal
Carta de Pero Vaz de Caminha (c) - Arquivo Nacional da Torre do Tombo

“E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza do que nesta vossa terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, que o desejo que tinha, de Vos tudo dizer, mo fez assim pôr pelo miúdo.”

Assim termina a carta de Pero Vaz de Caminha enviada ao Rei D. Manuel I de Portugal sobre a descoberta do Brasil, datada de 1 de Maio de 1500. 

É o primeiro documento da história enviado ao Rei de Portugal, registando o que os olhos dos portugueses viram, sobre a nova terra a que chegaram, integrando a 2ª Armada da Índia comandada por Pedro Álvares Cabral, e que viria a chamar-se Brasil. 

A carta conservou-se inédita durante séculos e foi redescoberta, em 1773. Conserva-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. Em 2005, este documento foi inscrito no Programa "Memória do Mundo" e classificado pela UNESCO.

Pedro Álvares Cabral

Imagens recriando a chegada de Pedro Álvares Cabral a Porto Seguro, no Brasil, a 22 de Abril de 1500




Mais informação sobre Pedro Álvares Cabral aqui