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| "Aguadeiros" - Alfredo Roque Gameiro, 1864-1935 * |
«Não há um ano que seja em que um aluno não me venha com o argumento do “para que é que isto serve no mundo real?”. O “isto” é a Filosofia, mas servirá para outras disciplinas. O imediatismo não se compadece com o rigor do pensamento. Mas veio a pandemia, o céu que nos caiu em cima, e o que ontem era experiência mental passou a ser o pão nosso de cada dia nas televisões. Se é um teste à nossa capacidade médica e à vontade política, também pode sê-lo aos princípios morais pelos quais a sociedade se rege. Também é disto que a Filosofia trata.
O que é agir moralmente em tempo de pandemia e míngua de papel higiénico? Quais os limites de intervenção do Estado? O direito fundamental da liberdade está a ser posto em causa com a quarentena obrigatória? Estou disposto a abdicar da privacidade em nome da segurança? Até onde pode ir a vigilância digital? Posso fazer piadas com os mortos por Covid? Devemos impor restrições aos “media” que instigam o medo? Os mortos decorrentes de um desconfinamento prematuro são um custo aceitável para evitar um número maior causado por uma hecatombe económica? O que conta são as consequências ou há deveres absolutos? Há vidas que valem mais do que outras?
Atentemos nesta última questão. Dan Patrick, vice-governador do Texas, afirmou que preferia morrer a ver as medidas de saúde pública prejudicarem a economia dos EUA e que o resto do país não se deveria sacrificar pelos mais velhos. Mais ainda, afirmou que havia “muitos avós” dispostos a morrer para manter a América que todos amam para os filhos e netos. Ele era uma dessas pessoas. Caíram-lhe em cima, de pulha para baixo, vil espécime arraçado de Trump. O desplante de sugerir o sacrifício de um grupo social em prol do bem comum. “A minha mãe não é descartável”, apressou-se a proclamar Andrew Cuomo, governador de Nova Iorque.
Por cá, Ramalho Eanes, antigo Presidente da República, afirmou algo semelhante: “Nós, os velhos, vamos ser os primeiros a dar o exemplo. […] se for necessário, oferecemos o nosso ventilador ao homem que tem mulher e filhos”. Foi enaltecido como exemplo moral. Roçagou a unanimidade. Valter Hugo Mãe foi das poucas vozes a alertar para o perigo da mensagem. O velho que não comunga da opinião de Ramalho Eanes é menos digno ou egoísta? Sentirá a pressão social para que se descarte a si mesmo? Pode bem dar-se o caso de ser o velho de vida virtuosa e o jovem racista que bate na mulher, mas disso nada sabemos. Joga-se a idade, tudo o resto permanece na sombra. A decisão “a seco”. E se for o nosso velho? Ou eu o velho.
Podemos isolar uma parte da população contra a sua vontade, ainda que “para seu bem”? Quando se pergunta a Jerónimo de Sousa, cidadão adulto, no pleno uso das suas faculdades mentais, o que está a fazer na rua, uma vez que tem mais de 70 anos, não constitui isto um atestado de menorização aos mais velhos? Qual a legitimidade do Estado para manter alguém em regime de clausura, longe da vista e do coração, apenas tendo a idade por critério? Esse mesmo velho que conhece e quer cumprir com todas as orientações de segurança. O estigma social está aí. A um salto do idadismo. Pior se calha ser um velho sem dinheiro. Seria diferente se fossem as crianças o grupo de risco? Não, não estamos todos no mesmo barco, só a tempestade é a mesma.
Os dilemas morais são uma constante nas aulas de Filosofia. Os alunos envolvem-se e discutem com paixão. Muitos deles, pelo menos. Não que a decisão se torne mais fácil. São demasiados os cambiantes de cada caso concreto. As teorias morais não nos proporcionam respostas definitivas sobre o que devemos fazer, pelo contrário, uma questão moral pode ser elucidada e dissecada por distintas teorias. A Filosofia ajuda-nos a ponderar sobre as alternativas e a pensar lógica e criticamente. A não aceitar passivamente o que nos colocam no prato. Isso é bom e ganha importância por estes dias, em que a Filosofia saiu à rua e nos entrou de rompante pela vida adentro. Mesmo na dos alunos mais cépticos.»
Miguel Cardoso
in Jornal do Fundão, 27/05/2020
*(Imagem via Grupo Arte, Cultura e História in Facebook)
*(Imagem via Grupo Arte, Cultura e História in Facebook)

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