terça-feira, 19 de maio de 2020

Valores Religiosos - A palavra aos alunos - 3

A Religião e o sentido da Existência


Foto (c)Lelé Batita

No quotidiano, inúmeras situações refletem a fragilidade da condição humana, a finitude do ser humano, a contingência do individuo, a solidão do Homem. Os nossos dias são como estradas de cidade, cheias de bifurcações, rotundas, cruzamentos, becos sem saída, e nós, a nossa mente, somos o carro. Todos os dias temos um novo percurso a percorrer e somos nós que escolhemos o nosso caminho, nós e só nós. Mas qual será? Será que devemos virar à esquerda e visitar a avó, ou será que devemos virar à direita e ir cumprimentar a rapariga bonita à porta da mercearia? O ser humano sempre se prendeu no facto de a vida apresentar uma quantidade ínfima de possibilidades e de não sermos capazes de determinar um caminho certo e único. No entanto, uma coisa é certa, a vida tem uma duração definida, ninguém consegue escapar às garras da morte. E pode ser tão simples como tropeçar na calçada e cair para estrada, um condutor distraído e o coração para, assim, sem nada que possamos fazer para o evitar. Isto faz-nos de pensar também na contingência do ser humano, na importância que ele tem face ao mundo, face à existência. Será que a rapariga, que tentava alcançar reparou? Se calhar sim, se calhar viu-o caído mas será que isso o torna indispensável à existência humana? Será a morte dele um acontecimento que ponha em causa a vida, a existência humana? Não me parece. Podia existir como podia não existir, não fazia diferença. E por fim, a existência humana faz-nos ter consciência que por mais laços afetivos que estabeleçamos, vamos sempre estar sozinhos na derradeira hora. Ninguém acompanhou o rapaz, ninguém seguiu com ele para a escuridão, nem a avó, de quem tanto gostava. O ser humano está entregue a si próprio, às suas decisões e à sua liberdade.

A tese defendida pelo autor (Camus) centra-se no facto de que a sensação de Liberdade que por vezes sentimos, a sensação de que somos donos do nosso futuro é contraditória e por isso, contrariada pela morte. A morte impede que haja liberdade.
Segundo o autor, a morte desempenha um importante papel na consciência do individuo. Esta adquire um estatuto subordinante relativamente à vida e à liberdade, impedindo que estas tenham alguma autonomia. A morte é inevitável, não temos opção, não temos poder de escolha. A morte é a derradeira prova da nossa falta de liberdade.
O decesso tem assim, na nossa consciência, um papel de opressão, impossibilitando a existência de liberdade. “Essa liberdade superior, essa liberdade de ser que é a única a poder fundar uma verdade, sei então que ela não existe. A morte está ali como única realidade”.

Segundo o autor (Camus), a morte desempenha um importante papel na consciência do individuo. Esta adquire um estatuto subordinante relativamente à vida e à liberdade, impedindo que estas tenham alguma autonomia. A morte é inevitável, não temos opção, não temos poder de escolha. A morte é a derradeira prova da nossa falta de liberdade.
O decesso tem assim, na nossa consciência, um papel de opressão, impossibilitando a existência de liberdade. “Essa liberdade superior, essa liberdade de ser que é a única a poder fundar uma verdade, sei então que ela não existe. A morte está ali como única realidade”.

O autor põe em causa o sentido da existência a partir da relação entre a liberdade e a morte. Numa primeira instância, o autor afirma que o sentido da existência se encontra profundamente ligado com a liberdade dando vários exemplos: “Pensar no amanhã, fixar um objetivo, ter preferências, tudo isto supõe a crença na liberdade”. Posteriormente, como já vimos, afirma que a morte impede a existência da liberdade porque esta define uma realidade inevitável e obrigatória a todos. A morte não pode ser contrariada, não pode ser impedida e tendo em conta que a liberdade e a morte não podem coexistir, a liberdade não existe. Sendo assim, e realçando o que o autor refere relativamente ao sentido da existência, se não há liberdade, o sentido da existência fica comprometido. 

A crença na existência de uma entidade ou realidade exterior, superior e perfeita, capaz de intervir no rumo dos acontecimentos surge como elemento unificador, e até atenuador, estabelecendo uma ponte entre a angústia existencial do ser humano e o mistério da morte, surgindo uma certa harmonia entre razão e a fragilidade humana. 

Soren Kierkegaard considera a religião necessária ao individuo na medida em que esta será o meio de conferir um sentido à existência e vida humana, constituindo assim um meio de atenuar a vertigem e angústia do nada. O ser humano livrar-se-á, deste modo, da consciência do vazio e do sentimento de angústia, tomando consciência que a morte não é necessariamente o fim de tudo e, simultaneamente, que não está sozinho, que as escolhas não são em vão e que os acontecimentos realmente podem ter significado. Kierkegaard defende que a tal crença em algo fora da própria existência humana concreta e a própria fé, sentimento fundamental da vivência religiosa, conferem não só resposta aos problemas mais profundos da condição humana, como estes, mas também melhoram a capacidade aceitação do sofrimento, assim como atribuem um sentido à existência, fazendo ainda com que o ser humano se sinta protegido e que a sensação de angústia e fragilidade seja atenuada.

A existência de uma realidade fora da situação concreta em que vive o ser humano é uma ideia que nos acompanha desde o início dos tempos. Acasos e coincidências, sensação de déjà vu, milagres, fenómenos paranormais e premonições surgem frequentemente como indicadores dessa existência. A meu ver, estes acontecimentos não são de todo indicadores da existência de algo superior. Todos estes elementos são obra de anomalias à regra, exceções ao que é considerado normal. São todos explicados pela ciência, tal como tudo neste Universo, e nada significam nem simbolizam. No entanto, opiniões relativas a este tema são muitas. Soren Kierkegaard defende que os acontecimentos podem ter significado, sendo este significado conferido pela religião. Assim, segundo este autor, elementos como milagres, acasos, coincidências, etc, têm de facto, significado e resultam da intervenção de uma entidade ou realidade exterior, indicando a sua existência.

Muitas vezes, elementos como milagres, premonições, fenómenos paranormais, entre outros, assumem o papel de explicação para situações inexplicáveis, dando origem à discussão sobre a aceitação destes fenómenos enquanto argumentos.
Na minha opinião estes elementos não constituem, de maneira nenhuma, uma explicação para certas situações, consideradas por alguns “inexplicáveis”. Como mulher de ciência de sou, acredito que tudo tem uma explicação racional e lógica. Defendo que tudo pode ser provado através de uma equação, ou de uma lei física.
Os milagres nada mais são do que desvios do padrão, como tantas vezes acontece em experiências laboratoriais, situações excecionais. O facto de uma pessoa com às portas da morte sobreviver, não está, a meu ver, relacionado com alguma força divina mas sim com o facto de existirem células vivas dentro do organismo da pessoa, que precisavam apenas de tempo para entrarem em funcionamento. “A esperança é a última a morrer” é uma expressão que todos conhecemos e adquire uma importância muito grande quando falamos de saúde e morte. Eu acredito que, realmente, a esperança deve ser a última a morrer, mas a esperança em quê? Esperança que algo “inexplicável” ocorra, ou esperança que o organismo, como incrível que é, seja capaz de solucionar o problema através das suas múltiplas funcionalidades? A posição relativamente a este tema é clara: ciência. Tudo pode ser explicado pela ciência. 

As premonições também não constituem um argumento de explicação para as tais situações “inexplicáveis”. São baseadas pura e simplesmente em probabilidades matemáticas. Mesmo sem perceber matemática, o nosso cérebro é capaz de analisar a frequência com que certas coisas ocorrem, e como ocorrem, em que condições. E é com base nessa análise, nessas reações químicas que ocorrem no cérebro, que certas pessoas poderão pensar que tem premonições. Para além disso, esses vislumbres do futuro ou do presente longínquo não estão sempre certos, provando mais uma vez que resultam de uma análise matemática, constituindo uma probabilidade, não uma certeza. E resultando de fenómenos matemáticos e químicos, não de fenómenos divinos, muito menos constituindo situações “inexplicáveis”.

Não digo que aquilo que pensamos sobre a ciência esteja tudo certo. Há formulas a acertar, há leis a adaptar, teorias a desenvolver. Nós apenas tentamos saber o máximo que podemos tendo em conta onde e quando nos encontramos. Há coisas que certamente consideramos certas agora e mais tarde irão provar-se falsas mas isso não significa que não seja ciência. O que ainda não sabemos explicar hoje, iremos saber explicar amanhã, mas isto segundo leis universais, comprovadas e explicadas, não admitindo situações “inexplicáveis”

Em suma, considero o recurso a elementos acima enunciados, como milagres e premonições como meio de explicação de “situações inexplicáveis”, de facto, absurdo, uma vez que todos esses fenómenos podem ser explicados através da ciência e, mesmo que por agora, possa ainda não existir uma resposta explicativa e concreta para determinados acontecimentos, esta existe, mas, como sabemos a ciência está em constante progresso em desenvolvimento. 

Catarina Brites, 11º ano

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