quarta-feira, 24 de junho de 2020

Valores Religiosos - a palavra aos alunos - 5

Dharmacakra localizado no topo do Templo Jokang em Lhasa, no Tibete.

«A experiência religiosa é de tal forma íntima e espiritual que todo indivíduo participa diferentemente nela e de acordo com a sua fé. Contudo, apesar da vivência religiosa ser intrínseca ao indivíduo e depender exclusivamente do mesmo, na medida em que a dimensão social da religião costuma criar uma forte identidade, cultura e comunidade onde está instalada, há um inerente domínio sobre as pessoas dado que estas estão sujeitas a diversos conjuntos de práticas e normas que se tornam culturalmente submissas aos ritos, símbolos, histórias, entre outros.

Nesse sentido, independentemente da sua religião e forma de expressar a religiosidade, o indivíduo não procura a religião, mas a religião e suas normas padronizadas é que impõem a sua participação nela. Por outras palavras, a religião institui por força e autoridade política de tal forma que até mesmo há crianças que, antes de sequer saber discernir o bem do mal, participam da sua dimensão social. Em suma, a iniciativa pessoal pode não possuir força suficiente para combater algo tão estabelecido e fixo que pode ser a religião e, por outro lado, ter sua “rebelião” reprimida - inclusivamente por parte da família ou por pessoas consideradas importantes para o indivíduo.

A crença ou fé faz parte da dimensão pessoal da religião, porquanto a experiência religiosa é sensível e individual. Sendo assim, ninguém sem crença pode ser obrigado a tê-la, analogamente ninguém com crença pode ser obrigado a perdê-la, pois a sensibilidade religiosa é influenciada pela essência de cada um, imutável e com valor de verdadeiro, relacionando diretamente a espiritualidade com a fé numa determinada religião.

A cerimónia fúnebre faz parte da dimensão social da religião, pois se trata da concretização de ritos e práticas institucionalizadas pela religião praticada.

Sendo a oração uma súplica, pedido dirigido a Deus, a um santo, a uma divindade, uma procura de uma relação com Deus, esta faz parte da dimensão pessoal, visto que requer uma elevada ou suficiente quantidade de sensibilidade religiosa. Por outro lado, também faz parte da dimensão social, na medida em que as orações podem ser realizadas em grupos e destinadas a indivíduos não pertencentes à comunidade, porquanto o Deus ao qual é suplicado, é Deus de todos.

A veneração ou idolatria a um determinado santo faz parte da dimensão pessoal da religião, pois é o sentimento excessivo do indivíduo por tal figura que provoca tamanha admiração e devoção, isto é, crença de adesão livre e da vivência pessoal. Em contraste, a idolatria não pode fazer parte da dimensão social, por debater-se - principalmente - com os códigos morais da religião, visto que os ídolos se substituem à figura de Deus.

A peregrinação (a Fátima ou a Meca), não é apenas um caminho realizado por um devoto de uma determinada religião, isto é, relaciona-se com a concretização da crença individual, atribuindo-se, assim, valores e sentidos que excedem a simples ação de caminhar. De tal forma que faz parte da dimensão pessoal e social em simultâneo. Por um lado, um indivíduo sem fé é incapaz de peregrinar dada a sua falta de admiração ou afeto ou até mesmo reconhecimento da religião quanto experiência religiosa, por outro, a peregrinação é uma prática que possuí grande valor social, sendo parte de determinadas culturas e comunidades. Por outras palavras, o ato de peregrinar é religiosamente social, porém não possuí qualquer relevância quando o praticante não está interiormente motivado e crente dos objetivos da jornada.

"Deus abandonou-nos" ou "Deus pôs-nos à prova". Em ambas as expressões há a presença de Deus e a sua inerente existência. Traduzindo-se, assim, as situações de calamidade como materialização da ausência de Deus ou um desafio proposto por Ele. Por outras palavras, tais pressupostos relacionam-se através da dimensão social da religião, na medida em que ambos estão de acordo com os escritos sagrados, onde qualquer desventura enfrentada pelo Homem corresponde à ausência de Deus ou aos obstáculos introduzidos por Ele, como forma pôr-nos à prova em aspetos específicos, ou seja, visto que resulta na expressão dos conjuntos de narrativas, mitos, histórias institucionalizadas pela religião.

Um símbolo é qualquer objeto, abstrato ou físico, que possuí um significado referente a outro objeto. Por exemplo, a Roda do Dharma (figura acima) - símbolo do budismo - representa religiosamente o “Nobre Caminho Óctuplo” o que, numa óptica cética religiosamente, não é nada além de um círculo com oito raios. Isto é, religiosamente os símbolos assumem valores e conotações que variam de indivíduo para indivíduo como também de crente para crente, exercendo - portanto - uma função de extrema relevância, pois - na perspetiva da dimensão pessoal - representam aceitação ou reconhecimento por parte do indivíduo portador quanto a sua vivência religiosa, a sua adesão à religião. Em contraste, - numa perspetiva social - inclui o indivíduo portador numa determinada comunidade, manifestando a identidade específica da religião como os seus conjuntos de valores e princípios com os quais o indivíduo se identifica e é identificado.

De fato a vulgaridade dos costumes religiosos nas sociedades contemporâneas tornam o sentido religioso de cada expressão despropositado, na medida em que são poucas as pessoas que possuem sensibilidade religiosa e exercem-na enquanto realizam costumes e práticas da sua religião.

O batismo, meramente simbólico e cultural, não atribuí qualquer valor ao bebé que - sequer capaz de exprimir-se por meio de palavras - é incapaz de perceber o sentido profundo do batismo. O Natal - um dos costumes cristãos mais importantes, senão o mais importante - reduzido ao comércio, glamour, comidas e um idoso que distribuí prendas, apresenta uma perda do real significado da data.

De forma geral, o valor religioso e espiritual que a sociedade dos dias que se seguem atribuí as práticas religiosas pode ser sintetizado nos casamentos religiosos. O casamento religioso surge como uma conceção preconcebida do matrimónio, onde as pessoas não designam a união a Deus, mas aos costumes tradicionais. Analogamente, as demais atividades religiosas carecem de real sensibilidade religiosa pelos praticantes, culminando no despropósito da experiência religiosa, no simples impulso de seguir o que é comum e normal, nada além de expressões sociais.

A dimensão social torna-se mais opressiva quando não há distinção entre os poderes políticos e religiosos, isto é, quando os detentores do controle do Estado baseiam-se numa única lógica religiosa, pois há uma religião que é privilegiada e consequentemente as demais são oprimidas. Uma vez que esses Estados - denominados teocráticos - estão situados no mundo muçulmano, a sociedade ocidental não sofre relevantemente, ao menos não radicalmente com penas que excedem a imaginação.

Nesse sentido, apesar de haver fundamentação religiosa na sociedade ocidental, - ainda que seja exigente contrariar normas previamente impostas pela tradição - há espaço para a manifestação da dimensão pessoal da religião atualmente.»

© Guilherme Marcello, "Dimensões pessoal e social da experiência religiosa", 11º ano.

(Foi mantida a grafia segundo a norma brasileira, de acordo com a nacionalidade do aluno).

terça-feira, 9 de junho de 2020

Valores Religiosos - A palavra aos alunos - 4



«Todas as religiões estão ligadas a uma cultura e, como tal, a primeira interação que o indivíduo
tem com o sagrado dá-se por conta da dimensão social. Esta experiência religiosa que é inerente
a uma comunidade familiar e até mesmo, à educação, terá um papel fundamental na abertura à
transcendência, que o indivíduo pode escolher ou não prosseguir na sua vida futura.
Frequentemente, esta dimensão pode estar demasiado enraizada num núcleo social o que, pode
causar restrições e constrangimentos na escolha do indivíduo, isto é, se este nascer numa família
onde princípios e práticas católicas estão muito presentes, como ir à igreja todos os domingos e
agradecer antes das refeições, pode tornar-se bastante difícil para o sujeito abstrair-se dessa
realidade e tentar, por ele próprio, chegar à sua dimensão pessoal da religião, isto é, escolher
aderir a uma religião, expressando crença e fé numa realidade transcendente, de acordo com as
suas vontades, sendo uma adesão livre.

Estas duas dimensões não se podem separar uma vez que, o ser humano está profundamente
inserido numa cultura, numa sociedade e por isso, apesar de ser livre das suas escolhas e
práticas religiosas, este nunca se pode abstrair por completo daquilo que o rodeia o que, por
vezes, pode levar a conflitos interiores no sujeito. Será que a experiência religiosa que sigo é a
que verdadeiramente me identifico? Ou estarei a ser uma marionete da sociedade onde me
insiro?

Estas questões que abalam incessantemente o indivíduo e que o deixam a questionar a sua
liberdade de expressar a sua fé pessoal, só podem ser atenuadas se este estiver bem seguro das
suas crenças e valores religiosos, de modo a que a dimensão social e pessoal conseguiam
coexistir, sem por em causa a independência de escolha do sujeito.

As dimensões pessoal e social da religião estão completamente relacionadas pelo que, existem
muitas manifestações que apesar de dependerem da adesão livre do indivíduo, podem sempre
ser realizadas no contexto de uma instituição como a oração que, tanto pode ser praticada
individualmente através da relação estabelecida entre ser humano e entidade divina, ou pode ser
feita num contexto social, como por exemplo, orar com a família, e ainda, a prática de veneração
a um determinado santo, que pode ser feita em particular ou em comunidade.

Contudo, existem também algumas manifestações da religião que pertencem exclusivamente a
uma das dimensões tais como, uma cerimónia fúnebre e uma peregrinação, que normalmente,
pressupõe a prática conjunta de um grupo de pessoas que partilham da mesma experiência
religiosa, sendo por isso, características da vertente social.

Por outro lado, a crença é sem a menor das dúvidas, uma manifestação pessoal da religião uma
vez que, por muito que o indivíduo esteja constantemente sob a influência da dimensão social,
esta não pode incutir forçosamente no mesmo a “fé” religiosa dado que, é algo que é inerente ao
ser humano, ou se tem ou não se tem e como tal, não pode ser forçada ao indivíduo e muito
menos, retirada do mesmo.

Numa situação de calamidade como a que está a ocorrer atualmente, é frequente surgirem
explicações religiosas para o evento como, “Deus abandonou-nos”, “Deus pôs-nos à prova”,
tudo justificações que o ser humano adquire para algo que por vezes, é fruto do acaso.
A meu ver, ambas as abordagens sugerem que o indivíduo está preso no mundo ilusório criado
pela religião, um mundo no qual este está “imune” e seguro de todos os perigosos que recaem
sobre a fragilidade humana. O sujeito encontra-se mergulhado na irrealidade de que, a entidade
divina irá salvá-lo e guiá-lo para uma vida melhor e por isso, é que mesmo em situações
catastróficas este consegue adquirir forças para combater as angústias do momento.
O indivíduo compele-se a acreditar que “tudo acontece por uma razão” e como tal, aquela
catástrofe teve um significado divino para ocorrer, Deus está a por a humanidade à prova e de
certeza, que os que conseguirem lidar da melhor forma com a situação, serão recompensados na
vida eterna.

Por outro lado, a primeira perspectiva de que “Deus abandonou-nos”, apesar de parecer que
pressupõe uma falta de crença no sagrado uma vez que, este não foi suficientemente poderoso
para impedir uma situação desastrosa, esta depreende uma grande religiosidade por parte do
indivíduo, caso contrário como é que este iria atribuir à causa de uma calamidade, a ausência de
Deus? Este tem de ser uma entidade extremamente grandiosa e potente para que, o seu
afastamento consiga causar tais fenómenos catastróficos.

Assim, apesar de ambas as considerações se relacionarem uma vez que, presumem a crença
numa religião, estas são interpretações religiosas diferentes de uma mesma situação e como tal,
considero que se associam a uma posição pessoal.

Deste modo, é ainda reforçada a dimensão pessoal da religião pois, apesar de esta apresentar os
mesmos escritos sagrados e códigos morais para todos os seres humanos, cabe a cada
indivíduo analisar a mensagem religiosa que está inerente e fazer a sua vivência, de acordo com
aquilo que considera ser a perspectiva adequada ao mesmo e por isso, é que muitas das vezes,
dentro de uma mesma religião existem certas discrepâncias de pensamentos.
.
Todas as religiões apresentam uma identidade que pode ser expressa através de textos
fundadores que são traduzidos num conjunto de narrativas, códigos morais, mitos e símbolos, os
quais constituem formas de comunicação da mensagem religiosa, permitindo uma aproximação
e união com o divino.
O facto de uma cruz ter um significado perante o Cristianismo, permite que o indivíduo através
desse objeto do profano consiga contactar com o sagrado particularmente, isto é, sem ter de se
dirigir a uma instituição ou a um lugar de culto coletivo.



Para além disso, certas religiões podem dar uma importância quase divina a um símbolo, como
por exemplo no Taoísmo, o Yin-Yang. Este simboliza o modo como é regido o Universo, ou seja,
através de dois princípios ativos que juntos criam uma harmonia e equilíbrio, e através do qual,
os crentes podem inferir diversos conhecimentos que podem levar para a sua vida como, o facto
de serem precisas duas forças contrárias para se chegar a uma proporção. Neste caso concreto,
ainda pode reforçar a crença pessoal uma vez que, são comprovados factos do mundo real
através do mesmo como, o dia segue a noite, o positivo atrai o negativo.
De uma forma geral, creio que os símbolos permitem reforçar acima de tudo a ligação individual
com o divino embora, e estando as duas dimensões inteiramente relacionadas, estes também
tenham uma contribuição para manifestações coletivas da religião como por exemplo, uma
família não comer carne de vaca por considerar o animal sagrado.

A religião é algo que esteve sempre presente na vida da humanidade e como tal, os seus ideias e
costumes estão desde cedo enraizados numa cultura. A celebração do Natal, casamento
religioso e batismo são tudo cerimónias que no seu âmago, têm um significado que se relaciona
com o transcendente, o sagrado. Mas será que em pleno século XXI estas têm o mesmo valor
religioso que em décadas passadas? A forma e o motivo pelo qual são realizados, serão o que é
pretendido pela religião? A reposta é evidente, não.
Estes costumes religiosos foram perdendo o verdadeiro significado à medida que se foram
tornando parte de uma cultura, de um hábito, não de uma religião, mas da sociedade. Se em
tempos se podia distinguir um crente de um não crente pelo simples facto de celebrar ou não o
Natal, hoje em dia, essa tarefa torna-se praticamente impossível uma vez que, essa
comemoração de trato religioso converteu-se num costume social.
A partir do momento em que, o nascimento de uma entidade divina se torna uma fonte de lucro
para milhares de empresas e uma “desculpa” para disparar os níveis de consumo mundial, creio
que essa celebração foi engolida pela sociedade materialista em que vivemos, perdeu o seu valor
religioso.

É claro que não posso desprezar o facto de outros milhares de pessoas manterem ainda presente
o verdadeiro significado dessa cerimónia mas, serão poucas as que o reconhecem.
Vivemos numa cultura de massas, onde o mais valioso é ter bens materiais e onde as escassas
manifestações que podiam significar um pouco mais do que um mero numerário, estão a ser
constantemente corroídas pela sociedade.
O mundo está a sofrer uma dessacralização.

É um facto que a religião e os seus costumes estão enraizados na sociedade porém, temos de
considerar também, a dessacralização que o mundo está a sofrer. Ora se cada vez mais existem
“alternativas” ao pensamento religioso, isto é, outras vertentes para as quais são canalizadas a fé
de cada indivíduo, então é sinal de que não existe uma pressão assim tão grande que seja capaz
de impedir cada um de se expressar da forma que quer.
Para além disso, a questão da liberdade individual é algo que, atualmente, possui um carácter de
grande importância e por isso, ideias que contrariam este princípio têm sido gradualmente
menosprezados na sociedade.

Contudo, nem sempre foi assim, nem sempre o Homem teve o direito de escolher os valores e
ensinamentos que quis seguir, quer fossem eles de carácter religioso ou não. Este era
constantemente oprimido e pressionado a seguir a dimensão social da religião, era forçado a
viver a mesma experiência religiosa da sua família e amigos. E aí sim, nesses tempos que não
são assim tão longínquos, o ser humano era afetado pela excessiva projeção da dimensão social
que ofuscava os valores e pensamentos individuais.

Mas se considero que isso ainda acontece na sociedade atual? Não. É claro que existem
exceções, países onde a religião ocupa um lugar de “pedestal” e por isso, não seguir os
costumes religiosos é considerado intolerável porém, na sua maioria, vivemos num mundo
condescendente, onde cada um tem o direito de escolher muito mais do que a religião que quer
seguir. »

Leonor Nicolau, 11º ano

sexta-feira, 5 de junho de 2020

As hipóteses científicas e a incerteza

Ilustração alusiva ao coronavírus - (c)Milo Manara, Itália, 2020

As declarações do presidente do Instituto Nacional de Saúde, segundo o qual "poderemos assistir a uma nova vaga da Covid-19 muito pior do que a primeira" vêm corroborar aquilo que tento explicar aos meus alunos no âmbito do estudo do conhecimento científico. 

A Ciência evolui por saltos, por procedimentos experimentais, por ensaio e erro; e são precisamente as incertezas, as insatisfações e a busca de soluções cada vez mais aproximadas daquilo a que se convencionou chamar "a verdade", que a fazem evoluir. 

Não adianta nada ficarmos sistematicamente a condenar os cientistas porque não descobrem aquilo de que precisamos, aquilo que é tão urgente e necessário, aquilo que era para ontem; eles fazem o seu trabalho, que é pesquisar, experimentar e analisar resultados. Depois desenhar outras conjeturas, buscar outros caminhos, traçar planos alternativos. 

As soluções podem não vir em tempo útil? Pode acontecer. Mas mesmo tendo essa noção, o homem de Ciência não desiste de perseguir os seus objetivos e a persistência será o mais importante dos seus traços de caráter.
As incertezas, os avanços e recuos, as revisões e os passos atrás fazem parte do processo científico em si mesmo.
Devemos sim, estar agradecidos a todos aqueles que embranquecem os cabelos a pensar em soluções alternativas, a pesquisar nos seus laboratórios, a exporem-se aos maiores riscos e a ficarem míopes de tanto olhar pelos microscópios. 

Assim como Galileu ficou cego por tentar perceber o que eram as manchas do Sol, também os cientistas de hoje poderiam dizer, acerca da temível Covid-19 que assola o mundo em 2020, de cada vez que falham uma pesquisa ou que retardam em encontrar uma solução: "e contudo ela move-se!"

(Para ler a entrevista com o Dr. Fernando Almeida clique aqui.)

quarta-feira, 27 de maio de 2020

A Filosofia saiu à rua num dia assim

"Aguadeiros" - Alfredo Roque Gameiro, 1864-1935 *
«Não há um ano que seja em que um aluno não me venha com o argumento do “para que é que isto serve no mundo real?”. O “isto” é a Filosofia, mas servirá para outras disciplinas. O imediatismo não se compadece com o rigor do pensamento. Mas veio a pandemia, o céu que nos caiu em cima, e o que ontem era experiência mental passou a ser o pão nosso de cada dia nas televisões. Se é um teste à nossa capacidade médica e à vontade política, também pode sê-lo aos princípios morais pelos quais a sociedade se rege. Também é disto que a Filosofia trata.
O que é agir moralmente em tempo de pandemia e míngua de papel higiénico? Quais os limites de intervenção do Estado? O direito fundamental da liberdade está a ser posto em causa com a quarentena obrigatória? Estou disposto a abdicar da privacidade em nome da segurança? Até onde pode ir a vigilância digital? Posso fazer piadas com os mortos por Covid? Devemos impor restrições aos “media” que instigam o medo? Os mortos decorrentes de um desconfinamento prematuro são um custo aceitável para evitar um número maior causado por uma hecatombe económica? O que conta são as consequências ou há deveres absolutos? Há vidas que valem mais do que outras?
Atentemos nesta última questão. Dan Patrick, vice-governador do Texas, afirmou que preferia morrer a ver as medidas de saúde pública prejudicarem a economia dos EUA e que o resto do país não se deveria sacrificar pelos mais velhos. Mais ainda, afirmou que havia “muitos avós” dispostos a morrer para manter a América que todos amam para os filhos e netos. Ele era uma dessas pessoas. Caíram-lhe em cima, de pulha para baixo, vil espécime arraçado de Trump. O desplante de sugerir o sacrifício de um grupo social em prol do bem comum. “A minha mãe não é descartável”, apressou-se a proclamar Andrew Cuomo, governador de Nova Iorque.
Por cá, Ramalho Eanes, antigo Presidente da República, afirmou algo semelhante: “Nós, os velhos, vamos ser os primeiros a dar o exemplo. […] se for necessário, oferecemos o nosso ventilador ao homem que tem mulher e filhos”. Foi enaltecido como exemplo moral. Roçagou a unanimidade. Valter Hugo Mãe foi das poucas vozes a alertar para o perigo da mensagem. O velho que não comunga da opinião de Ramalho Eanes é menos digno ou egoísta? Sentirá a pressão social para que se descarte a si mesmo? Pode bem dar-se o caso de ser o velho de vida virtuosa e o jovem racista que bate na mulher, mas disso nada sabemos. Joga-se a idade, tudo o resto permanece na sombra. A decisão “a seco”. E se for o nosso velho? Ou eu o velho.
Podemos isolar uma parte da população contra a sua vontade, ainda que “para seu bem”? Quando se pergunta a Jerónimo de Sousa, cidadão adulto, no pleno uso das suas faculdades mentais, o que está a fazer na rua, uma vez que tem mais de 70 anos, não constitui isto um atestado de menorização aos mais velhos? Qual a legitimidade do Estado para manter alguém em regime de clausura, longe da vista e do coração, apenas tendo a idade por critério? Esse mesmo velho que conhece e quer cumprir com todas as orientações de segurança. O estigma social está aí. A um salto do idadismo. Pior se calha ser um velho sem dinheiro. Seria diferente se fossem as crianças o grupo de risco? Não, não estamos todos no mesmo barco, só a tempestade é a mesma.
Os dilemas morais são uma constante nas aulas de Filosofia. Os alunos envolvem-se e discutem com paixão. Muitos deles, pelo menos. Não que a decisão se torne mais fácil. São demasiados os cambiantes de cada caso concreto. As teorias morais não nos proporcionam respostas definitivas sobre o que devemos fazer, pelo contrário, uma questão moral pode ser elucidada e dissecada por distintas teorias. A Filosofia ajuda-nos a ponderar sobre as alternativas e a pensar lógica e criticamente. A não aceitar passivamente o que nos colocam no prato. Isso é bom e ganha importância por estes dias, em que a Filosofia saiu à rua e nos entrou de rompante pela vida adentro. Mesmo na dos alunos mais cépticos.»
Miguel Cardoso
in Jornal do Fundão, 27/05/2020

*(Imagem via Grupo Arte, Cultura e História in Facebook)

terça-feira, 19 de maio de 2020

Valores Religiosos - A palavra aos alunos - 3

A Religião e o sentido da Existência


Foto (c)Lelé Batita

No quotidiano, inúmeras situações refletem a fragilidade da condição humana, a finitude do ser humano, a contingência do individuo, a solidão do Homem. Os nossos dias são como estradas de cidade, cheias de bifurcações, rotundas, cruzamentos, becos sem saída, e nós, a nossa mente, somos o carro. Todos os dias temos um novo percurso a percorrer e somos nós que escolhemos o nosso caminho, nós e só nós. Mas qual será? Será que devemos virar à esquerda e visitar a avó, ou será que devemos virar à direita e ir cumprimentar a rapariga bonita à porta da mercearia? O ser humano sempre se prendeu no facto de a vida apresentar uma quantidade ínfima de possibilidades e de não sermos capazes de determinar um caminho certo e único. No entanto, uma coisa é certa, a vida tem uma duração definida, ninguém consegue escapar às garras da morte. E pode ser tão simples como tropeçar na calçada e cair para estrada, um condutor distraído e o coração para, assim, sem nada que possamos fazer para o evitar. Isto faz-nos de pensar também na contingência do ser humano, na importância que ele tem face ao mundo, face à existência. Será que a rapariga, que tentava alcançar reparou? Se calhar sim, se calhar viu-o caído mas será que isso o torna indispensável à existência humana? Será a morte dele um acontecimento que ponha em causa a vida, a existência humana? Não me parece. Podia existir como podia não existir, não fazia diferença. E por fim, a existência humana faz-nos ter consciência que por mais laços afetivos que estabeleçamos, vamos sempre estar sozinhos na derradeira hora. Ninguém acompanhou o rapaz, ninguém seguiu com ele para a escuridão, nem a avó, de quem tanto gostava. O ser humano está entregue a si próprio, às suas decisões e à sua liberdade.

A tese defendida pelo autor (Camus) centra-se no facto de que a sensação de Liberdade que por vezes sentimos, a sensação de que somos donos do nosso futuro é contraditória e por isso, contrariada pela morte. A morte impede que haja liberdade.
Segundo o autor, a morte desempenha um importante papel na consciência do individuo. Esta adquire um estatuto subordinante relativamente à vida e à liberdade, impedindo que estas tenham alguma autonomia. A morte é inevitável, não temos opção, não temos poder de escolha. A morte é a derradeira prova da nossa falta de liberdade.
O decesso tem assim, na nossa consciência, um papel de opressão, impossibilitando a existência de liberdade. “Essa liberdade superior, essa liberdade de ser que é a única a poder fundar uma verdade, sei então que ela não existe. A morte está ali como única realidade”.

Segundo o autor (Camus), a morte desempenha um importante papel na consciência do individuo. Esta adquire um estatuto subordinante relativamente à vida e à liberdade, impedindo que estas tenham alguma autonomia. A morte é inevitável, não temos opção, não temos poder de escolha. A morte é a derradeira prova da nossa falta de liberdade.
O decesso tem assim, na nossa consciência, um papel de opressão, impossibilitando a existência de liberdade. “Essa liberdade superior, essa liberdade de ser que é a única a poder fundar uma verdade, sei então que ela não existe. A morte está ali como única realidade”.

O autor põe em causa o sentido da existência a partir da relação entre a liberdade e a morte. Numa primeira instância, o autor afirma que o sentido da existência se encontra profundamente ligado com a liberdade dando vários exemplos: “Pensar no amanhã, fixar um objetivo, ter preferências, tudo isto supõe a crença na liberdade”. Posteriormente, como já vimos, afirma que a morte impede a existência da liberdade porque esta define uma realidade inevitável e obrigatória a todos. A morte não pode ser contrariada, não pode ser impedida e tendo em conta que a liberdade e a morte não podem coexistir, a liberdade não existe. Sendo assim, e realçando o que o autor refere relativamente ao sentido da existência, se não há liberdade, o sentido da existência fica comprometido. 

A crença na existência de uma entidade ou realidade exterior, superior e perfeita, capaz de intervir no rumo dos acontecimentos surge como elemento unificador, e até atenuador, estabelecendo uma ponte entre a angústia existencial do ser humano e o mistério da morte, surgindo uma certa harmonia entre razão e a fragilidade humana. 

Soren Kierkegaard considera a religião necessária ao individuo na medida em que esta será o meio de conferir um sentido à existência e vida humana, constituindo assim um meio de atenuar a vertigem e angústia do nada. O ser humano livrar-se-á, deste modo, da consciência do vazio e do sentimento de angústia, tomando consciência que a morte não é necessariamente o fim de tudo e, simultaneamente, que não está sozinho, que as escolhas não são em vão e que os acontecimentos realmente podem ter significado. Kierkegaard defende que a tal crença em algo fora da própria existência humana concreta e a própria fé, sentimento fundamental da vivência religiosa, conferem não só resposta aos problemas mais profundos da condição humana, como estes, mas também melhoram a capacidade aceitação do sofrimento, assim como atribuem um sentido à existência, fazendo ainda com que o ser humano se sinta protegido e que a sensação de angústia e fragilidade seja atenuada.

A existência de uma realidade fora da situação concreta em que vive o ser humano é uma ideia que nos acompanha desde o início dos tempos. Acasos e coincidências, sensação de déjà vu, milagres, fenómenos paranormais e premonições surgem frequentemente como indicadores dessa existência. A meu ver, estes acontecimentos não são de todo indicadores da existência de algo superior. Todos estes elementos são obra de anomalias à regra, exceções ao que é considerado normal. São todos explicados pela ciência, tal como tudo neste Universo, e nada significam nem simbolizam. No entanto, opiniões relativas a este tema são muitas. Soren Kierkegaard defende que os acontecimentos podem ter significado, sendo este significado conferido pela religião. Assim, segundo este autor, elementos como milagres, acasos, coincidências, etc, têm de facto, significado e resultam da intervenção de uma entidade ou realidade exterior, indicando a sua existência.

Muitas vezes, elementos como milagres, premonições, fenómenos paranormais, entre outros, assumem o papel de explicação para situações inexplicáveis, dando origem à discussão sobre a aceitação destes fenómenos enquanto argumentos.
Na minha opinião estes elementos não constituem, de maneira nenhuma, uma explicação para certas situações, consideradas por alguns “inexplicáveis”. Como mulher de ciência de sou, acredito que tudo tem uma explicação racional e lógica. Defendo que tudo pode ser provado através de uma equação, ou de uma lei física.
Os milagres nada mais são do que desvios do padrão, como tantas vezes acontece em experiências laboratoriais, situações excecionais. O facto de uma pessoa com às portas da morte sobreviver, não está, a meu ver, relacionado com alguma força divina mas sim com o facto de existirem células vivas dentro do organismo da pessoa, que precisavam apenas de tempo para entrarem em funcionamento. “A esperança é a última a morrer” é uma expressão que todos conhecemos e adquire uma importância muito grande quando falamos de saúde e morte. Eu acredito que, realmente, a esperança deve ser a última a morrer, mas a esperança em quê? Esperança que algo “inexplicável” ocorra, ou esperança que o organismo, como incrível que é, seja capaz de solucionar o problema através das suas múltiplas funcionalidades? A posição relativamente a este tema é clara: ciência. Tudo pode ser explicado pela ciência. 

As premonições também não constituem um argumento de explicação para as tais situações “inexplicáveis”. São baseadas pura e simplesmente em probabilidades matemáticas. Mesmo sem perceber matemática, o nosso cérebro é capaz de analisar a frequência com que certas coisas ocorrem, e como ocorrem, em que condições. E é com base nessa análise, nessas reações químicas que ocorrem no cérebro, que certas pessoas poderão pensar que tem premonições. Para além disso, esses vislumbres do futuro ou do presente longínquo não estão sempre certos, provando mais uma vez que resultam de uma análise matemática, constituindo uma probabilidade, não uma certeza. E resultando de fenómenos matemáticos e químicos, não de fenómenos divinos, muito menos constituindo situações “inexplicáveis”.

Não digo que aquilo que pensamos sobre a ciência esteja tudo certo. Há formulas a acertar, há leis a adaptar, teorias a desenvolver. Nós apenas tentamos saber o máximo que podemos tendo em conta onde e quando nos encontramos. Há coisas que certamente consideramos certas agora e mais tarde irão provar-se falsas mas isso não significa que não seja ciência. O que ainda não sabemos explicar hoje, iremos saber explicar amanhã, mas isto segundo leis universais, comprovadas e explicadas, não admitindo situações “inexplicáveis”

Em suma, considero o recurso a elementos acima enunciados, como milagres e premonições como meio de explicação de “situações inexplicáveis”, de facto, absurdo, uma vez que todos esses fenómenos podem ser explicados através da ciência e, mesmo que por agora, possa ainda não existir uma resposta explicativa e concreta para determinados acontecimentos, esta existe, mas, como sabemos a ciência está em constante progresso em desenvolvimento. 

Catarina Brites, 11º ano

quinta-feira, 14 de maio de 2020

De Fernando Pessoa para os meus alunos

Fernando Pessoa por (c)António Faria

"Põe quanto És no Mínimo que Fazes
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive"

Ricardo Reis, in "Odes"

Conhecimento versus Mitos

(c)Alexandre Beck/UFSC
Cortesia do Prof. José Matias Alves.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Cidadania e valores morais: a questão dos preconceitos

Imagem do Blogue "Crônicas de Paris"

Hoje venho aqui propor uma reflexão sobre um dos males da sociedade e que nos afeta, a uns mais do que a outros, mas que todos conhecemos: trata-se do papel dos preconceitos, que muitas vezes acarretam prejuízos emocionais, exclusão social, dificuldades de empregabilidade e traumas difíceis de ultrapassar.
Hoje falamos dos gordos, do muito que sofrem com o escárnio social e das machadadas que isso produz na autoestima.
Dou a palavra a uma jornalista brasileira que relata uma vivência na 1ª pessoa, ocorrida no Brasil.
Hoje, a mesma jornalista vive e trabalha em Paris e é estudante de Filosofia na Sorbonne. 
Convido-vos a comentar este artigo, transcrito na íntegra do Blogue "Crônicas de Paris".

Gorda

«Um dos episódios mais marcantes que eu passei no Rio de Janeiro foi quando uma vez peguei um ônibus para ir ao trabalho.  O destino final da linha era a rodoviária e estávamos numa quarta-feia, véspera de um "feriadão".  
Pois bem, o trânsito estava pesado, muito engarrafamento e o clima no transporte era de preocupação. Quando chegou perto de onde eu ia descer, o motorista, com aquele típico jeito de ser carioca, pergunta:
-Alguém quer aproveitar e ficar  no sinal?
Muita gente desceu, mas eu, cansada após cobrir um evento e precisando chegar à redação do jornal, ciente de que  a jornada do dia seria de pelo menos umas 13 horas até escrever a matéria antes do fechamento, tratei de prevenir:
-Motorista, eu vou descer no ponto mesmo, tá?
Foi quando fui surpreendia com a manifestação de um homem – que ao longo do trajeto já demonstrava muita insatisfação, resmungando palavrões e bufando a cada lentidão do tráfego.
-Ah, não! Pelo amor de Deus! Tem gente que vai viajar e tá com risco de perder o ônibus! Ca…(ele solta um palavrão), não pode caminhar até o ponto, não? Gorda pra caramba, devia andar mais!
Percebendo o tom ofensivo, confesso ter ficado bem abalada.  Mas consegui me dirigir a ele perguntando se estava se referindo a mim. Ao receber a resposta afirmativa, aos gritos, só tive tempo de dizer o que veio à cabeça.
-Eu pelo menos posso emagrecer. Pior quem é feio e nem cirurgia plástica adianta
O povo no ônibus riu, mas o indivíduo grosseiro não se fez de rogado. Mais revoltado ainda, de grosso acrescentou o deboche.
-Ah, agora a gordona se acha bonita, é? E desde quando gorda é bonita? Gooooorda! Goooorda! 
E ficou gritando “gooooorda” inclusive pela janela, depois que desci do ônibus. 
Lembro de ter entrado no prédio onde trabalhava, em frente ao ponto de ônibus, com o som de “gooooooorda” ecoando  em meus ouvidos. Entrei no banheiro, já aos soluços, uma colega, hoje uma amiga, solidarizando-se, me consolou.
-Não liga pra esse idiota. E você não é gorda!
Salto no tempo de 10 anos depois, estou sentada sozinha no balcão de um bar em Paris. O barman, um homem bem atraente, começa a puxar conversa. Num dado momento do diálogo, ele me diz:
-Você é muito bonita. Uma das mulheres mais bonitas que já vi de perto.
Percebendo, enfim, o tom de cantada e não estando interessada, respondo:
-Não sou bonita não, sou gorda.
O francês me olhou com uma cara de quem não tinha entendido. Falei então em inglês. Ele rebateu:
-Desculpa, mas não  foi a língua que não entendi. Foi sua associação entre ser gorda e não ser bonita. Conheço gordas lindas e magras feias, magras bonitas e gordas feias. Eu não estou falando do seu biótipo. Estou apenas te elogiando. Eu te acho linda.
O choque levou à reflexão imediata. Vim de um país onde ser gorda é sinônimo de ser feia. Não digo que não haja isso aqui, mas é em menor grau. Principalmente em se tratando de atratividade entre pessoas seguidores do preceito heteronormativo, baseado nas relações afetivas ou sexuais de quem tem atração pelo sexo oposto – pois é a seara que conheço. 
A frase ouvida da amiga na redação uma década antes “você não é gorda”, escutei a vida inteira. Hoje percebo que quem me falou isso estava querendo dizer “olha, você é bonita mesmo com a balança marcando um Índice de Massa Corpórea (IMC) de obeso.”. Seja porque meu corpo, apesar de redondo, tem forma de violão. Seja porque o “conjunto da obra” transmite uma certa harmonia que pode até me “fazer passar por normal”.
Normal no sentido de norma, padrão vigente. Muitas pessoas não fazem isso por maldade.  Mas gostaria de aproveitar a lição aprendida no balcão de bar parisiense para alertar que existe preconceito nessa fala. 
Tanto preconceito quanto aquele ouvido por pessoas negras do tipo “ah, mas você não é preto”, quando o indivíduo tem pele em tom menos escuro, ou as tais “feições finas”.  Ou do gay que escuta “ah, mas você sabe se comportar, não fica dando pinta por aí”, dito a quem não carrega o estigma do “viado que desmunheca”.
A negação de uma condição transformada em pretensos elogios só atrapalha o combate à padronização dominante. Essa mesma padronização que leva aos preconceitos de raça, compleição física, orientação sexual e o que mais houver.
Eu poderia teorizar infinitamente sobre essa questão, citando autores, filosofia etc. Mas este espaço não tem pretensões acadêmicas. Ao mesmo tempo, basta irmos a um museu e ver algumas modelos da Renascença ou até do Impressionismo para termos certeza: padrão de beleza é uma construção social. 
E se tem uma coisa boa dessa contemporaneidade na qual somos conectados pela tecnologia, é a capacidade de, justamente, desconstruir esses paradigmas. Eu sinto falta de mais representação de mulheres gordas consideradas sexy e bonitas. Eu estou cansada do estigma da gorda engraçada ou nerd. 
Estou cansada de um mundo onde “gorda” é xingamento. 
E o que isso tem a ver com Paris? Talvez o aprendizado de que ser gorda não quer dizer ser feia. Ou talvez porque, em terra de perna fina, quem tem coxão é rainha…»
Ana Paula Cardoso, Paris, 05/05/2019
Artigo do Blogue "Crônicas de Paris».
Na transcrição do texto foi respeitada a grafia da autora, segundo a norma brasileira.
Para ver o perfil da autora do texto, clique aqui.

Ana Paula Cardoso

sexta-feira, 1 de maio de 2020

1 de Maio, registo do descobrimento do Brasil

Oscar Pereira da Silva, Desembarque de Cabral em Porto Seguro-óleo de 1904

Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel I de Portugal
Carta de Pero Vaz de Caminha (c) - Arquivo Nacional da Torre do Tombo

“E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza do que nesta vossa terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, que o desejo que tinha, de Vos tudo dizer, mo fez assim pôr pelo miúdo.”

Assim termina a carta de Pero Vaz de Caminha enviada ao Rei D. Manuel I de Portugal sobre a descoberta do Brasil, datada de 1 de Maio de 1500. 

É o primeiro documento da história enviado ao Rei de Portugal, registando o que os olhos dos portugueses viram, sobre a nova terra a que chegaram, integrando a 2ª Armada da Índia comandada por Pedro Álvares Cabral, e que viria a chamar-se Brasil. 

A carta conservou-se inédita durante séculos e foi redescoberta, em 1773. Conserva-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. Em 2005, este documento foi inscrito no Programa "Memória do Mundo" e classificado pela UNESCO.

Pedro Álvares Cabral

Imagens recriando a chegada de Pedro Álvares Cabral a Porto Seguro, no Brasil, a 22 de Abril de 1500




Mais informação sobre Pedro Álvares Cabral aqui

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Dia Mundial da Dança

"O Lago dos Cisnes", do compositor russo Piotr Ilitch Tchaikovski
No âmbito da Estética, alguns alunos escolheram como área de trabalho a Dança.
Lembro-me de ter assinalado nas aulas a estreita ligação que a Dança tem com a Música e que elas são duas das mais antigas Artes da Humanidade.
O Dia Mundial da Dança foi instituído pela UNESCO em 1982.

Para assinalar este dia, dedicado a uma das Artes mais belas, fica aqui a minha homenagem a todos aqueles e aquelas que lhe dedicaram a sua vida.
Para citar apenas alguns deles, infelizmente já desaparecidos:
- Anna Pavlova (1831-1931), Martha Graham (1894-1991), Margot Fontaine (1919-1991), Maurice Béjart (1927-2007), Pina Bausch (1940-2009), Rudolf Nureyev (1938-1993);
E, felizmente, ainda vivos: Mikhail Baryshnikov (1948),  Olga Roriz (1955), Rui Horta (1957).

Os atuais bailarinos e coreógrafos, agora confinados em casa e sem possibilidade de apresentar os seus espetáculos, fizeram vários vídeos partilhados na internet para assinalar este dia.
Merecem um aplauso pela sua persistência e toda a nossa solidariedade.

domingo, 26 de abril de 2020

"O que nos motiva?" A palavra aos alunos - 2

Sobre o programa "Entre o Céu e a Terra" com o Prof. Mário Sérgio Cortella  

A morada dos deuses do Olimpo na Mitologia Grega

Mário Sérgio Cortella - Comentário ao vídeo sobre religião e religiosidade

"Considero interessante e comovente relacionar o comportamento natural humano com ciências como a Matemática/Estatística através do estudo da tendência/probabilidade: "A ciência como forma de representar a realidade". É uma ideia que me agrada muito, pois é extremamente reconfortante. 

Eu faço (e fiz) a escolha de acreditar na ciência, como forma de confrontar a imensidão das incertezas que tenho em relação a tudo. Claramente ninguém quer morrer num denso mar de incertezas, mas sim respirar calmamente em momentos de segurança, que são promovidos pela crença. A inferência desse raciocínio é que todas as crenças surgem como solução do mesmo problema: a falta de paz e insegurança no desconhecido. Tal como o filósofo Mário Sérgio Cortella refere, da mesma forma que podemos dar credibilidade ao horóscopo, podemos dar à ciência, ao amor, aos deuses. É tudo uma questão de escolha. Tal que pode ser interpretada de forma binária: 1 ao ser concretizada e 0 ao não ser. Por outras palavras, a escolha promove a exclusão, porquanto 1 sempre será 1 e nunca 0 e, analogamente, 0 sempre será 0 e nunca 1.

Apesar de concordar com a ideia de nós - humanos - sermos capazes de "alterar a nossa rota" dado o nosso livre arbítrio, discordo com a constância comportamental dos animais declarados como não-racionais... parece uma perspetiva tão aristotélica! Dados os avanços nos campos de biologia cognitiva e psicologia, acredito que não haja muito sentido em tal associação.

O questionamento, tal como a constante dúvida, surge como forma de enxergar outras opções, outros caminhos a serem seguidos. Entretanto, como tudo, há extremos. O professor cita a falta de dúvidas e o excesso delas, o que me faz questionar em qual extremo se localizam "os verdadeiros questionadores", os amantes da Pseudociência. Como podem ter tantas certezas se tudo negam?


Escreveu Blaise Pascal: "Que é um homem diante do infinito? Afinal, que é o homem dentro da natureza? Nada, em relação ao infinito; tudo em relação ao nada; um ponto intermediário entre o tudo e o nada (...)".
Será que a formalização da religiosidade surge como resultado do desespero de estar entre o tudo e o nada?
Será a religião só uma forma de suprir o vazio da nossa própria existência?
Há acaso, na coincidência da vontade de Deus com a das pessoas que dizem saber a sua vontade?
Escolher no que crer não é também escolher a prisão na qual viver?
Quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum paraíso? 
Se vivemos em função de algo que não trazemos - durante o nascimento - nem levamos - durante a morte - qual é a finalidade da vida? O que nos motiva?"

© Guilherme Marcello, "Análise e compreensão da experiência religiosa", 11º ano.

(Foi mantida a grafia segundo a norma brasileira, de acordo com a nacionalidade do aluno).

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Dia Mundial do Livro


A UNESCO selecionou em 1996 este dia como o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor.
É incontornável a importância que a leitura tem na nossa vida. Seria impensável vivermos nos dias de hoje sem ler, já que a comunicação assume uma posição fundamental nas nossas relações, quer pessoais, quer laborais. Não é por acaso que o nível de literacia dos povos é um dos critérios para aferir o nível de desenvolvimento dos países. Portugal já só tem níveis baixos de analfabetismo entre as gerações mais idosas e sobretudo em localidades do interior. Mas no início do século XX, a sua taxa era de 80%.

Se é verdade que lemos cada vez menos em papel e mais em écrans, nem sempre assim foi. 
Mas, não faz sentido falarmos de livros e de leitura, sem falarmos de escrita. Elas são as duas faces da mesma moeda. Escrevemos para ler e lemos enquanto escrevemos. Uma não existe sem a outra.

Os nossos antepassados da Pré-História começaram por gravar figuras e símbolos nas paredes rochosas das cavernas, depois em pedras ou pedaços de madeira, mais tarde em placas metálicas e por fim em rolos de papiro. Aquilo que se começou a assemelhar a um livro, veio a ganhar forma. 

Papiros descobertos no Egito no século XX (c. 1952)

Em civilizações como a Grega, a Romana e também no Egito, esses rolos, escritos com tinta artesanalmente produzida, ganharam uma importância fundamental, não só na transmissão do conhecimento, como no repositório e arquivo de documentos, mais ou menos valiosos, que viriam a ser guardados para o futuro.
É claro que muita da história do conhecimento da humanidade se foi perdendo ao longo dos séculos, mercê de  e roubos e pilhagens, terramotos e incêndios, como foi o caso da terrível destruição da Biblioteca de Alexandria; nela residiam cerca de 40.000 rolos de papiro, autênticos tesouros de sabedoria da época clássica, nomeadamente escritos de Ptolomeu, Hypatia e outros mestres da Antiguidade.


Imagens ficcionais da Biblioteca de Alexandria e do seu incêndio.

Os livros na Idade Média assumiram uma outra dimensão; as iluminuras e os estilos de caligrafia pacientemente elaborados por frades copistas e depois cosidos à mão, predominavam essencialmente nos mosteiros, locais por excelência dedicados ao estudo e ao ensino. Esses mosteiros vieram mais tarde a dar origem aos colégios ligados a ordens religiosas, que, de certo modo, mantêm uma tradição até hoje. 
Por exemplo, Descartes frequentou um deles, dos Jesuítas. Mas Descartes já nasceu numa época em que os livros eram impressos, o que veio possibilitar a divulgação da leitura em escala pública. 

Monumento em Berlim
Essa mudança foi originada pela descoberta de Gutemberg, que, por volta de 1439, na sua oficina começou a imprimir com chapas metálicas moldes de letras a que se chamou "tipos". Estava descoberta a imprensa.
Os livros puderam então sair dos segredos das bibliotecas religiosas e chegar a meios laicos e a outras camadas de pessoas, que não só os nobres ou os religiosos. Pouco a pouco, a leitura foi-se expandindo, até chegar à invenção daquilo que conhecemos como jornais, que chegaram a ter grandes tiragens nas tipografias tradicionais e antes dos processos eletrónicos.
Hoje tornou-se muito fácil escrever em teclados e ler em écrans, mas sem Gutemberg, nada disto seria assim.
Ilustração de (C)José Ruy, para a Banda Desenhada sobre Gutemberg
(Cortesia de Maria Fernanda Pinto)
Para saber mais sobre a história do Livro, clique aqui.aqui .

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Dia Mundial da Terra



Hoje celebramos o 50º aniversário do Dia Mundial da Terra.
Cuidemos da Terra. Ela é a nossa Mãe e a nossa Casa.