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| Dharmacakra localizado no topo do Templo Jokang em Lhasa, no Tibete. |
«A experiência religiosa é de tal forma íntima e espiritual que todo indivíduo participa diferentemente nela e de acordo com a sua fé. Contudo, apesar da vivência religiosa ser intrínseca ao indivíduo e depender exclusivamente do mesmo, na medida em que a dimensão social da religião costuma criar uma forte identidade, cultura e comunidade onde está instalada, há um inerente domínio sobre as pessoas dado que estas estão sujeitas a diversos conjuntos de práticas e normas que se tornam culturalmente submissas aos ritos, símbolos, histórias, entre outros.
Nesse sentido, independentemente da sua religião e forma de expressar a religiosidade, o indivíduo não procura a religião, mas a religião e suas normas padronizadas é que impõem a sua participação nela. Por outras palavras, a religião institui por força e autoridade política de tal forma que até mesmo há crianças que, antes de sequer saber discernir o bem do mal, participam da sua dimensão social. Em suma, a iniciativa pessoal pode não possuir força suficiente para combater algo tão estabelecido e fixo que pode ser a religião e, por outro lado, ter sua “rebelião” reprimida - inclusivamente por parte da família ou por pessoas consideradas importantes para o indivíduo.
A crença ou fé faz parte da dimensão pessoal da religião, porquanto a experiência religiosa é sensível e individual. Sendo assim, ninguém sem crença pode ser obrigado a tê-la, analogamente ninguém com crença pode ser obrigado a perdê-la, pois a sensibilidade religiosa é influenciada pela essência de cada um, imutável e com valor de verdadeiro, relacionando diretamente a espiritualidade com a fé numa determinada religião.
A cerimónia fúnebre faz parte da dimensão social da religião, pois se trata da concretização de ritos e práticas institucionalizadas pela religião praticada.
Sendo a oração uma súplica, pedido dirigido a Deus, a um santo, a uma divindade, uma procura de uma relação com Deus, esta faz parte da dimensão pessoal, visto que requer uma elevada ou suficiente quantidade de sensibilidade religiosa. Por outro lado, também faz parte da dimensão social, na medida em que as orações podem ser realizadas em grupos e destinadas a indivíduos não pertencentes à comunidade, porquanto o Deus ao qual é suplicado, é Deus de todos.
A veneração ou idolatria a um determinado santo faz parte da dimensão pessoal da religião, pois é o sentimento excessivo do indivíduo por tal figura que provoca tamanha admiração e devoção, isto é, crença de adesão livre e da vivência pessoal. Em contraste, a idolatria não pode fazer parte da dimensão social, por debater-se - principalmente - com os códigos morais da religião, visto que os ídolos se substituem à figura de Deus.
A peregrinação (a Fátima ou a Meca), não é apenas um caminho realizado por um devoto de uma determinada religião, isto é, relaciona-se com a concretização da crença individual, atribuindo-se, assim, valores e sentidos que excedem a simples ação de caminhar. De tal forma que faz parte da dimensão pessoal e social em simultâneo. Por um lado, um indivíduo sem fé é incapaz de peregrinar dada a sua falta de admiração ou afeto ou até mesmo reconhecimento da religião quanto experiência religiosa, por outro, a peregrinação é uma prática que possuí grande valor social, sendo parte de determinadas culturas e comunidades. Por outras palavras, o ato de peregrinar é religiosamente social, porém não possuí qualquer relevância quando o praticante não está interiormente motivado e crente dos objetivos da jornada.
"Deus abandonou-nos" ou "Deus pôs-nos à prova". Em ambas as expressões há a presença de Deus e a sua inerente existência. Traduzindo-se, assim, as situações de calamidade como materialização da ausência de Deus ou um desafio proposto por Ele. Por outras palavras, tais pressupostos relacionam-se através da dimensão social da religião, na medida em que ambos estão de acordo com os escritos sagrados, onde qualquer desventura enfrentada pelo Homem corresponde à ausência de Deus ou aos obstáculos introduzidos por Ele, como forma pôr-nos à prova em aspetos específicos, ou seja, visto que resulta na expressão dos conjuntos de narrativas, mitos, histórias institucionalizadas pela religião.
Um símbolo é qualquer objeto, abstrato ou físico, que possuí um significado referente a outro objeto. Por exemplo, a Roda do Dharma (figura acima) - símbolo do budismo - representa religiosamente o “Nobre Caminho Óctuplo” o que, numa óptica cética religiosamente, não é nada além de um círculo com oito raios. Isto é, religiosamente os símbolos assumem valores e conotações que variam de indivíduo para indivíduo como também de crente para crente, exercendo - portanto - uma função de extrema relevância, pois - na perspetiva da dimensão pessoal - representam aceitação ou reconhecimento por parte do indivíduo portador quanto a sua vivência religiosa, a sua adesão à religião. Em contraste, - numa perspetiva social - inclui o indivíduo portador numa determinada comunidade, manifestando a identidade específica da religião como os seus conjuntos de valores e princípios com os quais o indivíduo se identifica e é identificado.
De fato a vulgaridade dos costumes religiosos nas sociedades contemporâneas tornam o sentido religioso de cada expressão despropositado, na medida em que são poucas as pessoas que possuem sensibilidade religiosa e exercem-na enquanto realizam costumes e práticas da sua religião.
O batismo, meramente simbólico e cultural, não atribuí qualquer valor ao bebé que - sequer capaz de exprimir-se por meio de palavras - é incapaz de perceber o sentido profundo do batismo. O Natal - um dos costumes cristãos mais importantes, senão o mais importante - reduzido ao comércio, glamour, comidas e um idoso que distribuí prendas, apresenta uma perda do real significado da data.
De forma geral, o valor religioso e espiritual que a sociedade dos dias que se seguem atribuí as práticas religiosas pode ser sintetizado nos casamentos religiosos. O casamento religioso surge como uma conceção preconcebida do matrimónio, onde as pessoas não designam a união a Deus, mas aos costumes tradicionais. Analogamente, as demais atividades religiosas carecem de real sensibilidade religiosa pelos praticantes, culminando no despropósito da experiência religiosa, no simples impulso de seguir o que é comum e normal, nada além de expressões sociais.
A dimensão social torna-se mais opressiva quando não há distinção entre os poderes políticos e religiosos, isto é, quando os detentores do controle do Estado baseiam-se numa única lógica religiosa, pois há uma religião que é privilegiada e consequentemente as demais são oprimidas. Uma vez que esses Estados - denominados teocráticos - estão situados no mundo muçulmano, a sociedade ocidental não sofre relevantemente, ao menos não radicalmente com penas que excedem a imaginação.
Nesse sentido, apesar de haver fundamentação religiosa na sociedade ocidental, - ainda que seja exigente contrariar normas previamente impostas pela tradição - há espaço para a manifestação da dimensão pessoal da religião atualmente.»
© Guilherme Marcello, "Dimensões pessoal e social da experiência religiosa", 11º ano.
(Foi mantida a grafia segundo a norma brasileira, de acordo com a nacionalidade do aluno).

























